Russos e americanos competem por apoio no âmbito do G-20

A guerra civil da Síria e a hipótese de uma intervenção militar ocidental contra o regime de Bashar Assad dividiram a reunião de cúpula do G-20, que terminou ontem, em São Petersburgo, na Rússia. Principal agenda política internacional, a reação ao suposto uso de armas químicas pelo ditador em 21 de agosto opôs os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos EUA, Barack Obama, cada um reivindicando ter o maior apoio para suas pretensões.

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL , SÃO PETERSBURGO, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2013 | 02h08

Embora não tenha constado da declaração final do evento, a intervenção militar dominou as discussões nos dois dias do G-20, superando os temas da agenda econômica, que deveriam ser o centro de interesse da cúpula de chefes de Estado e de governo das 20 maiores potências globais.

Em sua declaração de encerramento, às 16h, horário local, Putin afirmou contar com o apoio de sete países à sua política, que impõe o veto sistemático às resoluções contrárias a Assad no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Segundo o anfitrião da cúpula, China, Itália, Índia, Indonésia, África do Sul, Argentina e Brasil se opuseram à eventual intervenção militar que seria liderada pelos EUA fora do "quadro de legalidade internacional".

Segundo o presidente, os países que "apoiam a Rússia" afirmaram ser contra qualquer ação militar sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. No campo oposto, afirmou Putin, além dos americanos, estariam a França, o Canadá, a Turquia e a Arábia Saudita, interessados na queda de Assad.

Com base no suposto apoio recebido, Putin deu indícios de que fornecerá armas ao exército regular de Assad caso a Síria seja alvo de uma intervenção. Antes do evento, o presidente russo chegara a afirmar que estava disposto a apoiar a operação militar no Conselho de Segurança das Nações Unidas caso houvesse "provas convincentes" do uso de armas químicas pelo regime sírio na periferia de Damasco. Ao fim do encontro em São Petersburgo, sua posição foi oposta - e beligerante. Diante das evidências de que americanos e franceses preparam uma coalizão para bombardear a Síria, Putin advertiu: "Se vamos ajudar a Síria? Sim, nós ajudaremos a Síria".

A decisão se baseia, segundo Putin, na convicção de que o suposto ataque com armas químicas de fato aconteceu, mas teria sido organizado por rebeldes em busca de apoio internacional contra o ditador. "Eles esperam a ajuda do exterior", reiterou. "É o objetivo dessa provocação."

Negociando a formação de uma coalizão internacional para bombardear a Síria, Barack Obama fez a conta oposta. Segundo o presidente americano, pelo menos 11 países estariam dispostos a apoiar a intervenção - mesmo que sem apoio militar: França, Grã-Bretanha, Canadá, Austrália, Japão, Coreia do Sul, Espanha e alguns que não são membros do G-20, como Turquia e Arábia Saudita.

"É unânime que armas químicas foram usadas e não deveriam ser usadas", argumentou Obama. "A maioria do mundo está confortável com a nossa conclusão de que o governo Assad foi responsável pelo uso."

Obama evitou projetar o resultado da votação no Congresso americano, que vai avaliar o apoio ou não à intervenção. Mas deu sinais de que está preparando o ataque, apesar da oposição da maior parte da opinião pública dos EUA. "Não estou usando as armas químicas como pretexto para a ação militar", garantiu. "Mas há momentos em que temos de decidir se vamos nos levantar pelo que nos preocupamos."

Aliado dos EUA, o presidente da França, François Hollande, disse que todos os países do G-20 preferem uma solução política para a crise na Síria, mas acusou os vetos de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU de bloquearem essa alternativa. "Não haverá solução militar. Mas a solução militar pode acelerar a solução política."

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