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Russos e árabes

Putin visitará Egito e Turquia para avançar seu plano de se aproximar do mundo islâmico

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 05h00

Que diferença uma palavra pode fazer: “Ocidental”. Foi ela que faltou no anúncio de quarta-feira do presidente Donald Trump, ao reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. A omissão é proposital. As consequências são vastas. Mais uma vez, os Estados Unidos cedem espaço para a Rússia no Oriente Médio. Vladimir Putin o ocupará imediatamente: ele parte na segunda-feira para Egito e Turquia.

Trump declara que Jerusalém é capital de Israel; palestinos veem ato de guerra

Em abril, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia divulgou um comunicado que passou despercebido: “Reafirmamos nosso compromisso com os princípios aprovados pela ONU para um acordo palestino-israelense, que inclua o status de Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado Palestino. Ao mesmo tempo, devemos afirmar que, neste contexto, vemos Jerusalém Ocidental como a capital de Israel.”

O anúncio pegou o governo israelense de surpresa. Depois de analisá-lo, preferiu o silêncio. Agora, os israelenses afirmam que a Rússia já havia dado o mesmo passo que Trump. Trata-se do oposto. A Partilha da ONU previa um status especial para Jerusalém. Israel ocupou sua parte ocidental, em 1948. Em 1967, tomou a parte oriental. Em 1980, anexou a cidade e a declarou sua “capital indivisível”. Isso contradiz as resoluções da ONU, que determinam que o status final de Jerusalém será definido por um acordo entre as duas partes.

Guerra no Iêmen

Em seu anúncio de abril, Putin ao mesmo tempo se antecipou a Trump e reafirmou seu compromisso com essas resoluções e com o objetivo dos palestinos de transferir sua capital de Ramallah para Jerusalém Oriental, quando houver um acordo final. Algo que a direita israelense, que governa o país, não aceita.

Trump, por sua vez, colocou-se ao lado dessa direita, contra o pensamento liberal em Israel e sobretudo contra toda a comunidade internacional e todo o espectro do mundo árabe-muçulmano. Jerusalém é o único tema capaz de unir os rivais Irã e Arábia Saudita, xiitas e sunitas.

A morte do ex-ditador iemenita Ali Abdullah Saleh, na segunda-feira, é outro sinal da fragilidade da estratégia de Trump para a região. Encorajado pelo apoio brindado pelo presidente americano em sua visita a Riad, em maio, Saleh se reconciliou com seus antigos aliados sauditas. Em seguida, foi morto pela milícia xiita dos houthis, apoiada pelo Irã.

O episódio torna ainda mais difícil uma saída negociada para o conflito, que já deixou 10 mil mortos desde que os sauditas iniciaram sua desastrada campanha no Iêmen, em 2015.

O encontro de Putin com o marechal Abdel Fattah al-Sissi, nesta segunda-feira no Cairo, já estava agendado. Mas ele ganha um significado inteiramente distinto com a iniciativa de Trump. Assim como todos os líderes mundiais importantes, Putin repudiou o reconhecimento de Jerusalém. Essa circunstância pavimenta o caminho na direção do seu grande objetivo: um papel de liderança da Rússia no mundo muçulmano.

Em seguida, Putin se encontrará com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Logo depois do anúncio de Trump, ambos conversaram pelo telefone e manifestaram “séria preocupação”. Agora, o ambiente ajudará a cimentar a reaproximação dos dois. Putin e Erdogan estiveram em lados opostos no conflito sírio: a Rússia apoiou o regime de Bashar Assad e a Turquia, os rebeldes. Assad, Irã e Rússia venceram.

Projeto russo

A parceria russa com o Irã na Síria tende a afastar Moscou de Riad. No entanto, a questão de Jerusalém cria um terreno comum. E, afinal, o canal nunca se fechou, já que, como grandes países produtores de petróleo, russos e sauditas estão sempre em negociação para influir no seu preço mundial.

Trump pretendia entrar para a história em razão do Oriente Médio. Desse jeito, ele conseguirá. Não por alcançar a paz, como sonhou, mas por ceder espaço ao maior adversário dos Estados Unidos. 

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