Russos ratificam candidato de Putin

Vitória de Dmitri Medvedev com mais de 70% dos votos permite a líder russo continuar no poder como premiê

Lourival Sant?Anna, MOSCOU, O Estadao de S.Paulo

03 de março de 2008 | 00h00

A maioria dos eleitores russos ratificou ontem o plano do presidente Vladimir Putin, de continuar no poder, ainda que formalmente em outro cargo. O vice-primeiro-ministro Dmitri Medvedev venceu a eleição presidencial com 70,3% dos votos, com 90% das urnas apuradas, dispensando o segundo turno. Conforme anunciado pelo próprio Putin, cuja popularidade supera 70%, Medvedev o nomeará primeiro-ministro, função que se deslocará para o centro do poder na Rússia. Eleito em 2000 e reeleito em 2004, Putin não podia mais, pela lei, candidatar-se a presidente.Às 23h em Moscou (17h em Brasília), Putin e Medvedev subiram ao palco do concerto que se realizava na Praça Vermelha para celebrar a vitória. "Seguiremos o rumo estabelecido pelo presidente Putin", disse Medvedev, repetindo o mote de sua campanha: "Juntos, venceremos." Putin agradeceu a todos os que compareceram às urnas e interpretou: "Significa que vivemos numa sociedade democrática, com a participação da sociedade civil", numa aparente resposta às críticas de que o Kremlin suprimiu essa participação, assim como a oposição e a imprensa independente.Mais tarde, Medvedev considerou "sem precedentes" o comparecimento de dois terços dos eleitores inscritos. "É uma prova de que o povo não está indiferente ao futuro de nosso país." Ele garantiu que a divisão entre as funções de presidente e de premiê continuará obedecendo às leis: "Ninguém pretende mudá-las." Seguindo essa divisão, o presidente eleito, que assume em dois meses, afirmou que a política externa caberá a ele, que sua prioridade serão os países vizinhos e sua primeira viagem internacional será a uma das ex-repúblicas soviéticas.Apesar da previsibilidade do resultado, chamou a atenção a votação obtida pelo candidato comunista, Gennady Zyuganov, que teve 17,91% dos votos, e pelo ultranacionalista Vladimir Jirinovski, que recebeu 9,49%. "Este é obviamente um voto de protesto", disse ontem à noite Alexei Levinson, do instituto de pesquisas independente Levada Center. "Essa é uma mudança importante na política russa. O Partido Comunista não pode ser mais considerado uma força obsoleta." O liberal Andrei Bogdanov ficou com 1,27%.Na eleição parlamentar de dezembro, o partido Rússia Unida, de Putin, obteve a maioria absoluta, com 64% dos votos para a Duma, a Câmara de Deputados; o Partido Comunista ficou em segundo, com 12%. Pesquisa do Levada previa que Medvedev obteria 80% dos votos; Zyuganov, 11%, e Jirinovski, 9%, em números arredondados. Os candidatos de oposição, no entanto, não ficaram satisfeitos. Assim que a contagem de votos começou, Zyuganov e Jirinovski anunciaram que entrariam com ações na Justiça denunciando fraude nas eleições. "Nunca vimos esse tipo de atrevimento antes, tanta cédula sendo enfiada nas urnas", disse o secretário do Comitê Central do Partido Comunista, Valery Rashkin. Segundo ele, houve irregularidades em várias cidades. Muitos funcionários públicos disseram ter sido pressionados por seus chefes a votar em Medvedev. A maioria dos russos deseja a continuidade das políticas de Putin, que resultaram num crescimento médio de 6,7% desde 2000 e numa queda contínua do desemprego, que chegou a 5,8% em janeiro. A fatia dos russos abaixo da linha da pobreza diminuiu de 30% para 10%, alimentando um boom na economia que, segundo os especialistas, já não é mais impulsionado apenas pelo alto preço do petróleo, do qual a Rússia é grande produtora e exportadora, mas pela demanda interna e pelos investimentos em bens de capital, que aumentaram 21% em 2007. Talvez ainda mais importante, Putin tem mantido o país estável, depois do caos dos anos 90."Pela primeira vez a Rússia está tendo uma sucessão civilizada", festejou Sergei Kasantsev, de 48 anos, dono de uma faculdade privada e pró-Medvedev. "Antes, o novo presidente chegava criticando as políticas de seu antecessor e perseguindo quem estava no governo." Essa visão está longe de ser unânime, como mostra a mulher de Kasantsev, Larissa, de 46 anos. "Não gosto do fato de um candidato ser levado pelo outro. Medvedev foi imposto por Putin. Zyuganov é herdeiro dos comunistas. Jirinovski não é muito normal. Não temos escolha."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.