Sergey Dolzhenko/EFE/EPA
Sergey Dolzhenko/EFE/EPA

Russos tentam se informar sobre guerra na Ucrânia enquanto TV do país ignora invasão

Nos canais russos, a narrativa é de que a Ucrânia é culpada pela guerra; enquanto isso, audiência da BBC em russo triplica em uma semana

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 15h59

MOSCOU - Enquanto os termos “guerra” e “invasão” estão barrados na imprensa russa, as TVs se referem à invasão da Ucrânia como “operação especial”, tal como definiu o presidente Vladimir Putin. A narrativa é de que a Ucrânia e o ocidente são os responsáveis pelos ataques em Kiev e as cidades ao redor. Para buscar uma alternativa, os russos se voltaram para a TV britânica.

Na última quarta-feira, 2, a BBC, canal público do Reino Unido, divulgou um salto em sua audiência em língua russa. Foram 10,7 milhões de pessoas acompanhando o site de notícias em russo do canal em uma semana, um número recorde, e três vezes acima da audiência regular. No site em inglês o salto foi de 252%, para 423.000.

“A página ao vivo em russo cobrindo a invasão foi o site mais visitado em todos os serviços em língua não inglesa do Serviço Mundial da BBC, com 5,3 milhões de visualizações”, informou o serviço de imprensa do canal. 

O motivo pode estar na própria cobertura russa da guerra. A BBC fez um levantamento das transmissões em canais russos na última terça-feira, 1º, quando as forças russas avançavam sobre Kiev e bombardeavam Kharkiv, na Ucrânia. Segundo o canal, a TV russa anunciava que a Ucrânia era a responsável pelos ataques em suas próprias cidades.

Neste dia, o Channel One, um canal popular e controlado pelo Estado, anunciou a interrupção de sua programação regular às 5h30 locais, para anunciar que os horários da TV haviam sido alterados "devido a eventos conhecidos". O boletim de notícias, então, passou a sugerir que os relatos sobre forças ucranianas destruindo equipamentos militares russos eram falsos, projetados para "enganar espectadores inexperientes".

"Continuam a circular na internet filmagens que não podem ser descritas como nada além de falsas", diz o apresentador.

Um outro canal, o NTV, que é de propriedade de uma subsidiária da Gazprom - a gigante empresa de gás da Rússia - concentrava a sua cobertura aquele dia nos eventos em Donbass, no leste da Ucrânia, onde a Rússia declarou na semana passada que estava iniciando sua "operação militar especial" para desmilitarizar e desnazificar o país.

Segundo a BBC, não havia menção a relatos do enorme comboio militar de quilômetros de extensão serpenteando Belarus, no norte, para Kiev. "Começamos com as últimas notícias de Donbass. Os combatentes do LNR [República Popular de Luhansk] continuam sua ofensiva, tendo viajado 3 km, enquanto as unidades do DNR [República Popular de Donetsk] viajaram 16 km", diz o apresentador da NTV.

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Luhansk e Donetsk são as duas regiões separatistas pró-Rússia da Ucrânia que o Kremlin reconheceu a independência em 21 de fevereiro, levando ao aumento da escalada antes da invasão acontecer três dias depois.

Tanto no Channel One quanto no Rossiya 1, outro canal controlado pelo governo, a narrativa é de que as forças ucranianas cometeram crimes de guerra e que a ameaça aos civis vem de “nacionalistas ucranianos” e não das forças russas.

"Eles usam civis como escudo humano, posicionando deliberadamente sistemas de ataque em áreas residenciais e intensificando o bombardeio de cidades em Donbass", disse o apresentados do Rossiya 1. O discurso da Ucrânia usando seus civis como escudo humano é repetido, inclusive, pelo presidente Vladimir Putin.

Os paralelos históricos entre “a operação militar especial” com a luta da União Soviética contra a Alemanha nazista também é comum nos canais. "As táticas dos nacionalistas que usam crianças para se proteger não mudaram desde a Segunda Guerra Mundial", diz o apresentador de um programa matinal no canal irmão de Rossiya 1, o Rossiya 24.

À tarde o canal NTV mencionou os ataques em Kharkiv naquele dia, mas de uma maneira distinta. “A julgar pela trajetória do míssil, o ataque foi feito do noroeste, onde não há forças russas", disse o apresentador durante a edição do noticiário às 16h, horário de Moscou. 

Nesta quinta-feira, o chanceler russo Serguei Lavrov ecoou essas acusações ao responder as perguntas de jornalistas durante coletiva de imprensa. Quando foi questionado se conseguia “dormir enquanto as bombas russas matam crianças”, Lavrov acusou a jornalista de fazer propaganda pró-ocidente e não se sensibilizar com outras guerras. 

 

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