AP Photo/Dita Alangkara
AP Photo/Dita Alangkara

Entrevista: 'Russos verão razão para serem ainda mais brutais'

Na opinião de analista, retaliação contra a Rússia já era esperada por seu envolvimento no conflito sírio

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2016 | 05h00

A morte do embaixador russo em Ancara pode aprofundar a cooperação entre turcos e russos, apesar de combaterem em lados opostos na Síria. Na avaliação do especialista em Oriente Médio do Centro de Estudos da Eurásia da Universidade de Indiana (EUA) Jamsheed Choksy, o ataque tinha por objetivo abalar as relações entre Moscou e Ancara. Mas, como explicou em entrevista ao Estado, reforçará o objetivo comum de russos e turcos de “combater terroristas” tanto dentro da Síria, como em seus próprios territórios.

Qual a principal consequência?

A consequência número 1 será o aprofundamento das relações entre Ancara e Moscou. A relação esteve muito ruim após a Turquia derrubar um jato russo na Síria no ano passado. Mas depois começou a melhorar porque Erdogan escreveu uma carta e se desculpou. Depois, quando houve a tentativa de golpe contra Erdogan, Putin rapidamente manifestou apoio à resposta do governo. A morte do embaixador já é tratada pelos russos como um ataque terrorista e os turcos dirão o mesmo. Todo o episódio será visto como um ataque contra Rússia e contra a Turquia por terroristas islâmicos com o objetivo de desestabilizar as relações entre os dois países.

Esse foi o propósito? 

Claro, é um ataque direto contra a Rússia, em retaliação pela presença russa na Síria, pelo apoio a Assad, e pela grande ofensiva russa-iraniana por toda a Síria. Agora, se esse atirador era membro do Estado Islâmico, ou radicalizado pela internet, ou outro grupo, ainda precisamos descobrir. Os russos verão aí razão para serem ainda mais brutais e fortes na Síria, mas também contra radicais dentro da própria Rússia, em locais como Chechênia. Turcos também serão mais agressivos na Síria. 

Como será, se eles estão em lados opostos na Síria?

Estão e não estão. Os russos apoiam Assad, mas ao mesmo tempo quando os turcos atacam os radicais do Estado Islâmico, isso ajuda o regime sírio. Eles estão em lados opostos, mas existe um interesse comum. E esse interesse ficará ainda mais forte depois do ataque em Ancara. Turquia, Rússia, Irã e Assad dirão: “Vejam o que os terroristas fazem”. Lados diferentes usarão o ataque para o próprio interesse. 

Esse é um novo capítulo no conflito sírio? 

Certamente, o início de um novo nível do conflito sírio, mas também de cooperação entre Rússia e Turquia. 

Haverá um recrudescimento militar nos próximos dias? 

Sim, nos próximos dias, a Rússia será ainda mais agressiva na Síria, assim como Turquia, e os dois cooperarão muito mais. 

Quão grave podemos considerar a morte um embaixador?

É algo muito sério. Haverá um grande apoio ao governo turco para qualquer que seja a resposta que ele resolva dar. Podemos ter certeza de que os russos também culparão os ‘terroristas’ por isso. 

O conflito da Síria está perto de um fim? 

Dificilmente. Mesmo se russos, iranianos e o regime de Assad tiverem sucesso e matarem todos da oposição, se Assad continuar no poder, ele governará um país que suas próprias forças brutalizaram. Eles mataram cerca de 500 mil pessoas. O conflito não acabará, mesmo se Assad sobreviver. 

O sr. acredita que a Rússia previa uma retaliação como essa?

Quando ouvi a notícia de hoje, fiquei triste, mas nem um pouco surpreso, porque todos que acompanham, estudam o Oriente Médio se perguntavam quando começaríamos a ver ataques mais diretos contra a Rússia em retaliação pelo envolvimento na Síria. Além da Rússia, veremos retaliações contra Turquia e até contra o Irã. O problema é que haverá uma punição apropriada, mas também desmedida de cada um desses países. 

 

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