Saá deve libertar presos em distúrbios

O presidente interino Adolfo Rodríguez Saá recebeu, nesta segunda-feira, as Mães da Praça de Mayo e assegurou a advogados defensores dos direitos humanos, postos importantes na área da justiça, numa tentiva de acabar com as apreensões relacionadas com seus antecedentes autoritários. O setor mais radicalizado das Mães, representado por Hebe de Bonafini, chegou cedo a Casa do Governo e foi recebido pelo peronista Rodríguez Saá, que a Assembléia Legislativa havia designado, no sábado, para substituir Fernando de la Rúa, que acabara de renunciar. Saá também está designado para convocar eleições, que vão se realizar no dia 3 de março. "Desde 1984 nós não entrávamos nesta casa, desde 1984 não éramos atendidas como pessoas", disse Bonafini, que todas as quintas-feiras realiza, junto com outras mães de crianças desaparecidas uma ronda simbólica na Praça de Mayo, localizada em frente a Casa Rosada, exigindo justiça e punição para os culpados pelos seqüestros e assassinatos de seus filhos. Estima-se que pelo menos 30 mil presos políticos foram executados sumariamente entre 1976 e 1983, tempos de ditadura miliar. Rodríguez Saá se despediu da delegação de mães com um beijo e atendeu de imediato o pedido feito por elas. Bonafini disse à imprensa que o presidente se comprometeu a enviar ao Congreso um projeto de lei para liberar os presos durante os recentes episódios de violência social e saques na Argentina, que deixaram um saldo de mais de 20 mortos, 200 feridos e cerca de 2 mil presos em todo país. "O presidente nos prometeu que já tem em mente uma lei para liberdade, não sei de todos, mas acredito que sim, de todos os presos políticos e sociais. Temos grandes expectativas e esperança de que em primeiro de janeiro todos os companheiros que estão no cárcere, recuperem a liberdade", disse Bonafini. O setor mais moderado das Mães, representado por Línea Fundadora, adversária de Bonafini, assegurou à Associated Press que também se encontrará com Rodríguez Saá nos próximos dias. Rodríguez Saá, de 54 anos, ocupou por 18 anos seguidos o governo da província de San Luis, desde la restauração democrática em 1983, até sua renúncia, na semana pasada. Sua reputação como administrador é ótima, mas foi acusado de governar San Luis com mão de ferro e de não respeitar os direitos de seus adversários, nem a independência do poder judicial. Boa imagem - Provavelmente com a intenção de dissipar essa imagem ruim, Rodríguez Saá nomeou como secretário da Justiça o advogado Alberto Zuppi, homem ligado a organismos de defesa dos direitos humanos, que assessorou as embaixadas extrangeiras nos julgamentos de extradição dos criminosos de guerra, em tempos de nazismo. Também entregou a secretaria de direitos humanos a Jorge Taiana, um peronista de esquerda que foi secretário executivo da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organizacão dos Estados Americanos (OEA). Zappi anunciou, na segunda-feira, uma fundamental mudança de atitude do novo governo em relação aos pedidos de extradição de ex-militares argentinos, acusados de violar direitos humanos e requeridos por tribunais estrangeiros. Tanto o ex-presidente peronista Carlos Menem como o radical De la Rúa recusaram sempre a extradição de acusados argentinos, invocando o princípio da territorialidade para aplicar a lei penal. "Existe um princípio de direito internacional que é entregar ou julgar. Se não estamos dispostos a entregar as pessoas requisitadas, temos a obrigação internacional de julgá-las. É um princípio obrigatório que aceitamos, mas que não está sendo posto em prática. Trata-se, portanto, de algo que precisa ser feito", disse o secretário da Justiça. Ele informou também que a Oficina Anticorrupção, criada pelo governo anterior e severamente questionada pelo ex-presidente Menem e sua ala peronista, "vai seguir em pleno funcionamento. Não existem limites. A orientação que recebi do presidente é a de que ninguém nasce de coroa, ou seja, com privilégios".

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