Saddam, de ditador a prisioneiro de guerra

Durante as mais de duas décadas em que esteve à frente do poder no Iraque, Saddam Hussein ganhou a fama de homem violento. Durante todo o seu mandato, o comportamento do ex-presidente iraquiano ficou marcado pela megalomania - seus retratos e seus palácios estavam presentes em todo o Iraque - e pelo seu desejo ardente de entrar para os livros de história como um grande líder árabe. Para Saddam, seu ego era mais importante do que o bem estar do povo iraquiano, ao qual, publicamente, fazia questão de mostrar sua crueldade.O ex-ditador não abandonou seu país quase nunca, e nos últimos anos viveu em uma espécie de ´mundo de ilusões´, sempre rodeado de militares e políticos que o obedeciam cegamente e que não se atreviam a fazer sequer uma crítica à sua brutal forma de governar - já que quem levava uma má notícia ao líder freqüentemente pagava com a própria vida.SósiasPelo medo de atentados Saddam empregou também numerosos sósias, que o representavam nas aparições e compromissos públicos. Ao longo dos anos, o culto pessoal ao ditador foi ganhando contornos cada vez mais grotescos. Seu retrato, sempre sorridente e de arma na mão, não podia faltar em nenhum edifício público. Artistas contratados pelo governo se encarregavam de construir e não deixar faltar bustos, estátuas e canções que louvavam o ditador. E o povo iraquiano assumiu de tal maneira o culto a seu líder que muita gente saudava sua imagem, inclusive quando não havia ninguém observando. "Papai Saddam vê tudo" - era o que se ensinava às crianças, nas escolas.Segundo dados oficiais, Saddam nasceu em 28 de abril de 1937, em uma aldeia próxima da cidade de Tikrit, em uma família de pequenos agricultores. Órfão de pai antes mesmo de nascer, teve uma infância pobre. Como pastor, ajudava a família antes de se mudar para a capital, Bagdá. Ainda um estudante, com 19 anos, entrou para o partido socialista árabe Baath. Meses depois, teria cometido seu primeiro assassinato, a mando da organização. Em 1958, já um membro atuante do Baath, Saddam passou seis meses na cadeia, acusado de atentados contra o então regime iraquiano, que colocava o partido na ilegalidade. No ano seguinte, participou de um atentado contra o então primeiro-ministro, general Abdul Karim Kassan. Por causa disso, foi julgado e condenado à morte.O poderAcabou fugindo para a Síria e depois para o Egito. Em 1963, retornaria ao Iraque, e começaria a conhecer o poder, com a ascensão do Baath. Desde essa época, Saddam já tinha fama de cruel: ordenava a execução de qualquer membro do partido que suspeitava que não lhe era leal. Tornou-se secretário-adjunto do Baath no Iraque e, em 1968, foi um dos líderes mais ativos do golpe militar que depôs o governo da época. Virou vice-diretor do Comando da Revolução. Em 1979, tornou-se presidente do Iraque, depois de seu grupo ter derrubado o presidente Ahmad Hassan Bakr. Homem-forte do regime, Saddam ´plantou´ a versão de que Bakr teria renunciado por problemas de saúde.Nos primeiros anos de poder, manteve uma relação de proximidade com a União Soviética, que contribuiu para o rearmamento iraquiano. Uma de suas primeiras providências, já no cargo de presidente, foi mandar exterminar todos os opositores no partido. Adotou políticas de premiar delações de opositores a seu regime e empregou métodos como o uso de armas químicas e gases tóxicos, para exterminar a minoria de origem curda no norte do país.Amigo dos EUAA partir daí, não escondeu de ninguém sua vontade: transformar o país em potência militar do Oriente Médio e firmar sua imagem como líder do mundo árabe. Graças ao dinheiro do petróleo, Saddam modernizou o Iraque, construiu estradas e introduziu programas sociais. Na guerra contra o Irã (de 1980 a 1988), o ditador empenhou-se em buscar proximidade com Washington. E conseguiu. Com ajuda do serviço secreto dos Estados Unidos, obteve até mesmo imagens de satélites de posições inimigas.As coisas mudariam depois da invasão do Kuwait, em 1990. Com suas tropas expulsas do país vizinho depois da Guerra do Golfo, o país de Saddam amargou o embargo econômico imposto pelas Nações Unidas - o que provocou o empobrecimento do povo. Mas o ditador continuou se reforçando no poder, reprimindo a oposição com violência. Em abril deste ano, quando as tropas de coalizão invadiram o Iraque, Saddam apareceu em público pela última vez. » Veja a galeria de imagens

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