Saddam diz que ordenou julgamento de xiitas executados

Saddam Hussein admitiu a um tribunal iraquiano nesta quarta-feira que ordenou o julgamento de 148 xiitas que foram executados nos anos 80, mas insistiu que a ação foi legal, já que eles eram suspeitos de uma tentativa de assassinato contra ele. O líder iraquiano disse ainda que, como assumiu a responsabilidade, não havia razão para julgar os outros acusados de participar do crime. Seu discurso dramático no tribunal foi feito um dia depois que os promotores de seu julgamento apresentaram um decreto presidencial com uma suposta assinatura de Saddam aprovando as sentenças de morte para os 148 xiitas, a prova mais contundente contra ele até agora no julgamento que já dura quatro meses. Saddam não confirmou ter assinado a aprovação. Ele e sete outras pessoas estão sendo julgados pela execução dos xiitas, assim como pela prisão e tortura de outros e a apreensão e destruição de suas terras, após a tentativa de assassinato do líder iraquiano na cidade de Dujail, no dia 8 de julho de 1982. A acusação afirma que as ações foram ainda mais graves e apresentou documentos mostrando que famílias inteiras foram presas, torturadas, incluindo mulheres e crianças de até três meses de idade. De acordo com os documentos apresentados, entre as 148 pessoas sentenciadas à morte no caso, estão pelo menos dez jovens, incluindo um menino de 11 anos. Segundo a promotoria, as sentenças fizeram parte de um "julgamento imaginário" na Corte Revolucionaria de Saddam "Se o chefe torna as coisas mais fáceis para vocês, dizendo que foi o responsável, então por que continuam atrás dessas pessoas? O Chefe de Estado está aqui, julguem-me e deixem os outros irem embora", contestou Saddam, apontando para Awad al-Bandar, um dos membros do Tribunal revolucionário, cuja assinatura também estava no documento que autorizava as execuções, apresentado na terça-feira. Sobre a destruição das terras das famílias em Dujail, ele confirmou que destruiu as propriedades, de acordo com um resolução emitida pelo Conselho de Comando do Tribunal Revolucionário, uma instituição comandada por Saddam, e argumentou que o governo tinha o direito de confiscar as terras de acordo com o "interesse nacional" e que ele havia ordenado que fosse concedida uma compensação aos proprietários. Nos últimos dois dias, a promotoria apresentou uma série de documentos que detalham a burocracia por trás da onda de prisões e execuções. Entre elas estava o decreto com a aprovação das execuções, datado de julho de 1984 As testemunhas, residentes de Dujail, disseram à corte em sessões anteriores que foram presas, torturadas e que tiveram parentes mortos. Várias mulheres contaram que foram surradas e receberam choques elétricos. Uma delas afirmou que o próprio Ibrahim bateu em seu peito enquanto ela estava pendurada de cabeça para baixo. Na quarta-feira, o chefe da promotoria, Jaafar al-Moussawi, apresentou cartas atribuídas aos outros três acusados supostamente escritas dias depois da tentativa de assassinato. As mensagens apontavam a ligação das famílias de Dujail ao partido Dawa, uma milícia xiita de oposição acusada de comandar o ataque. Mais de dez dos nomes que constavam nas cartas para o Ministério do Interior estavam na lista dos sentenciados à morte, o que para al-Moussawi constata que os três réus tiveram um papel direto nas mortes. Ali Dayih, que supostamente escreveu uma das cartas negou a participação, assim como Abdullah Kazim Ruwayyid e seu filho Mizhar, que eram funcionários do partido Baath, de Saddam. Mizhar Ruwayyid insistiu que sua única função no partido era a de operador telefônico e negou que a letra nas cartas fosse sua. Os promotores detalharam como as 399 pessoas de Dujail foram detidas e transportadas de uma prisão em Bagdá para uma prisão no deserto, ao sul do Iraque, em 1984. Para cada veiculo que carregava prisioneiros, havia uma lista com o nome do motorista e das pessoas que ele transportava. Al-Moussawi apresentou mais de uma dúzia dessas listas. A equipe de defesa de Saddam compareceu ao julgamento, assim como na sessão de terça-feira, depois de por fim ao boicote. A virada no caso alimenta a esperança de que o controverso julgamentos seja visto com credibilidade em um país ainda dividido pelo legado de Saddam. A distância entre xiitas e sunitas só aumentou com o crescimento da violência sectária, que deixou pelo menos 68 pessoas mortas na terça-feira em bombardeios contra alvos religiosos.

Agencia Estado,

01 Março 2006 | 14h44

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