Saddam é defendido por ´Ali Químico´ em segundo julgamento

Começou nesta segunda-feira, 21, o segundo julgamento de Saddam Hussein. Segundo os promotores do caso, no julgamento serão expostos os assassinatos de dezenas de milhares de curdos em quase duas décadas de repressão.O ex-líder tinha seis novos defensores, em sua maioria ex-militares iraquianos, diferente dos sete ex-membros da inteligência e oficiais do partido Baath que estavam com ele no caso Dujail. Entre os novos defensores está o primo do ex-ditador, Ali Hassan al-Majid, mais conhecido como "Ali Químico" devido ao suposto uso de gases venenosos contra vilas curdas.No primeiro dia do julgamento, os promotores mostraram à corte fotos de mulheres e crianças encontradas em covas coletivas feitas entre os anos de 1987 e 1988. Um grande mapa do norte do Iraque foi aberto no tribunal e marcado com etiquetas que destacavam as vilas que supostamente foram atingidas por gás mostarda e agentes que atuam no sistema nervoso."Está na hora de a humanidade saber (...) a magnitude e a escalada dos crimes cometidos contra o povo do Curdistão", disse o promotor chefe Munqith al-Faroon, em seu discurso inicial. "Vilas inteiras foram destruídas, como se a matança de pessoas não fosse o bastante. Esposas esperaram por seus maridos, famílias esperaram pelo retorno dos seus filhos - mas em vão." Este julgamento é o segundo que liga Saddam às supostas atrocidades cometidas por seu regime. O ex-presidente também foi julgado, ainda sem veredicto, pelo genocídio de 148 xiitas na cidade de Dujail na década de 1980. Caso seja condenado em um dos casos, Saddam poderá ser levado à forca. Em contraste com o juiz no caso Dujail, que gritava com a defesa e os desdenhava durante seus pronunciamentos, o juiz que atuou nesta segunda-feira, Abdullah al-Amiri, falou calmamente durante todo o julgamento - exceto uma vez, quando gritou com dois membros da defesa que ficaram em pé em respeito a Saddam. Depoimento ásperoSaddam foi novamente desafiador. Ao pedirem para ele dar seu nome, o ex-ditador respondeu: "Você me conhece". Em seguida, disse que a corte estava seguindo as "leis da ocupação". Finalmente ele se identificou como "o presidente da república e comandante em chefe das forças armadas", insistindo que continua sendo o líder do Iraque. Questionado sobre sua possível ligação com genocídios, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, ele afirmou que para responder a isso era "necessário volumes de livros". O juiz, então, ordenou o estenógrafo que digitasse "inocente" na ata do júri. A acusação de genocídio - que Saddam não enfrentou no caso Dujail - é considerada difícil de ser provada. Segundo o estatuto do tribunal especial criado para julgar os crimes do regime, para se provar que houve um genocídio é preciso provar que o réu tinha a intenção de "abolir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso". Os promotores, no entanto, investiram nas acusações. Segundo eles, um decreto governamental ordenava a execução de todas as pessoas entre 15 e 70 anos de idade nas áreas curdas. Milhares de vilas foram destruídas e seus moradores, mortos ou presos em prisões ou vilas coletivas.Em uma das poucas agitações no júri, Saddam ficou furioso com a acusação de estupro. "Nunca poderei aceitar a afirmação de que uma iraquiana foi estuprada enquanto Saddam era presidente", gritou o ex-ditador, apontando seu dedo aos promotores. AnfalO regime de Saddam lançou, no início da década de 1980, a "Anfal", ofensiva cujo objetivo era reprimir as guerrilhas curdas que tinham ligação com o Irã. Segundo uma investigação da Human Rights Watch, feita em 1993, o regime de Saddam bombardeou vilas curdas com armas químicas antes de enviar forças terrestres para matar os residentes. Segundo estimativas, o número de mortos da Anfal foi entre 50 mil (segundo o Human Rights Watch) e 180 mil (segundo a promotoria). Os promotores disseram que a evidência das covas coletivas serão usadas contra o ex-ditador. Além disso, mais de 9 mil documentos serão apresentados no júri, e cerca de 70 testemunhas serão ouvidas. Porém, segundo o advogado de Saddam, Khalil al-Dulaimi, a corte foi ilegalmente formada "por autoridades da ocupação" - alegação desprezada pelo júri.

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