Saddam não foi morto ´por vingança´, diz governo iraquiano

O governo iraquiano afirmou neste domingo, 31, que a execução do ex-presidente Saddam Hussein foi um ato de justiça, e não de vingança."Todo esse processo de execução diz respeito à justiça", disse Hiwa Osman, um conselheiro da Presidência do Iraque, em entrevista à BBC.As declarações do governo iraquiano foram feitas depois que novas imagens não-oficiais da execução de Saddam foram exibidas por emissoras de televisão árabes e se espalharam pela internet neste domingo.As imagens, aparentemente gravadas com um telefone celular, indicam que o ex-presidente iraquiano trocou insultos com testemunhas presentes à execução pouco antes de ser enforcado."Nós não sabemos quem estava gritando com Saddam ou com quem ele estava trocando insultos, mas eu não acredito que tenha sido algum membro do governo iraquiano", afirmou Osman."Há milhares de vítimas de Saddam no Iraque e algumas delas podem ter conseguido entrar no local. E aquele momento deve ter sido tão intenso para essas vítimas que elas talvez não tenham conseguido se controlar", disse o conselheiro.VídeoO ex-presidente iraquiano, de 69 anos, foi enforcado no sábado por crimes contra a humanidade. Ele havia sido condenado à morte por um tribunal iraquiano em 5 de novembro, devido a sua participação no assassinato de 148 pessoas, a maioria xiitas, na cidade de Dujail, em 1982.Um primeiro vídeo da execução, transmitido pela televisão estatal iraquiana no sábado, mostrava os carrascos encaminhando o ex-presidente de forma respeitosa e silenciosa até a forca.O novo vídeo contraria a versão oficial do governo iraquiano sobre a execução, que foi testemunhada por um pequeno grupo de pessoas, incluindo um representante do primeiro-ministro. O conselheiro de segurança nacional do governo iraquiano, Mowaffaq al-Rubaie, que assistiu ao enforcamento, disse no sábado que Saddam Hussein foi tratado com respeito na forca, sem humilhação, e que todos os padrões islâmicos e internacionais foram seguidos.O novo vídeo mostra uma das testemunhas gritando para Saddam ir "para o inferno". O ex-líder iraquiano reage, e questiona a bravura dos presentes.Em outro trecho, algumas pessoas são ouvidas gritando o nome de Moqtada Al-Sadr, líder de milícia e um dos principais clérigos xiitas do Iraque, que teve o pai morto por agentes do regime de Saddam Hussein.Na parte final do vídeo, Saddam cita trechos do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, mas é interrompido pela abertura do alçapão onde estava pendurada a forca.DivisõesAs novas imagens podem servir de munição para alimentar as reclamações de advogados de Saddam de que o ex-presidente iraquiano teria enfrentado um processo legal injusto.Segundo o correspondente da BBC Peter Biles, de Bagdá, o modo como a execução ocorreu, mostrado nesse vídeo, poderá aumentar as divisões no Iraque entre apoiadores e opositores do ex-líder.O fato de alguns dos presentes gritarem o nome de Moqtada Al-Sadr pode reforçar a visão dos sunitas de que a execução de Saddam teve mais a ver com vingança xiita do que com justiça iraquiana, diz Biles.Um dia depois da execução, centenas de apoiadores de Saddam estão visitando o local onde o ex-presidente iraquiano foi enterrado neste domingo, em sua cidade natal, Awja, na região de Tikrit, ao norte de Bagdá.Saddam foi sepultado em uma cerimônia com a presença de poucas pessoas, em um terreno de sua família, no mesmo local onde estão enterrados seus filhos Uday e Qusay, mortos por tropas americanas em 2003.Alguns visitantes se ajoelham diante do túmulo, coberto com a bandeira iraquiana. Uma grande fotografia do ex-presidente foi colocada em uma cadeira perto do túmulo.O governo iraquiano tem dado sinais de que não se incomoda com a possibilidade de que o túmulo de Saddam se torne um local de peregrinação política.Ministros iraquianos dizem acreditar que a influência prática de Saddam no Iraque chegou definitivamente ao fim com sua execução.

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