Saddam receberá o veredicto de seu julgamento em outubro

Após nove meses de testemunhos, o problemático julgamento de Saddam Hussein foi colocado em recesso nesta quinta-feira até o dia 16 de outubro, quando os cinco juízes encarregados darão o veredicto que poderá levar à morte do ex-presidente iraquiano.A última audiência ocorreu sem a presença do presidente deposto, que foi representado por dois de seus sete advogados. A defesa clamou novamente pela inocência de Saddam, acusando a corte de perseguir seu cliente. O juiz que coordena o tribunal, o curdo Raouf Abdel-Rahman, foi o responsável pelo recesso.Saddam e outros sete acusados estão em julgamento desde o dia 19 de outubro de 2005. Eles são acusados de terem planejado e executado o massacre de 148 muçulmanos xiitas na cidade de Dujail como punição pela tentativa de assassinato de Saddam, em 1982.A promotoria do caso pede a pena de morte ao ex-presidente e outros dois acusados. As execuções no Iraque são realizadas através de enforcamento, mas Saddam pediu para morrer como um militar caso seja condenado. Isto é: através de um esquadrão de fuzilamento, e não no cadafalso "como um criminoso qualquer", disse ele.Saddam também enfrentará outro processo pela sangrenta repressão contra os iraquianos curdos nos anos 80. O julgamento começará no dia 21 de agosto.Na sessão desta quinta-feira, advogados apontados pelo tribunal leram as considerações finais em nome do ex-vice-presidente Taha Yassin Ramadan e do juiz da corte revolucionária que condenou os xiitas de Dujail à morte, Awad al-Bandar.A defesaOs advogados argumentaram que as evidências apresentadas durante o processo não conseguem provar que os acusados são culpados, de fato, pelas mortes e torturas sofridas pelos cidadãos de Dujail - o mesmo argumento utilizado pelo advogado (este também apontado pela corte) de Saddam em sua última réplica, na sessão de quarta-feira. Entretanto, Ramadan e al-Bandar ignoraram seus advogados substitutos alegando a contratação de representantes estrangeiros."Eu recuso me sujeitar a este tipo de procedimento e não irei apresentar minha própria defesa", disse Ramadan, que já foi uma das mais influentes figuras durante o regime de Saddam. "Este advogado, com todo o respeito, pode ser cem vezes mais competente que o meu escolhido, mas eu não sei nem seu nome", explicou Ramadan.Al-Bandar discutiu com o juiz encarregado, que o acusou de barrar seu advogado de apresentar seu testemunho. Então, al-Bandar anunciou que estava se retirando da corte, mas Abdel-Rahman ordenou que dois guardas o detivessem."Você também é juiz", disse Abdel-Rahman. "Como você pode agir desta forma? Isto não é um jogo, é uma corte".Quando al-Bandar reclamou de seu advogado apontado pela corte, Abdel-Rahman perguntou: "Que tipo de juiz você era?"E al-Bandar respondeu: "Eu era o melhor."Então o conselho apontado pela corte apresentou um resumo de seus argumentos contra a condenação de al-Bandar, pedindo que o tribunal levasse em consideração a idade avançada do acusado e que "ele serviu a seu país, sempre procurando fazer justiça".BoicoteOs advogados de defesa originais boicotaram o julgamento no mês passado, explicando que estavam tomando tal atitude em represália ao assassinato do terceiro advogado do time, Khamis al-Obeidi, desde que o julgamento havia começado.As sessões também foram atrasadas pela resignação do primeiro juiz encarregado do caso, que permitia que Saddam e os outros acusados pudessem fazer discursos políticos diante das câmeras de televisão dentro da corte.Políticos xiitas reclamam da demora do julgamento e dizem que Saddam e os outros acusados deveriam ter sido executados logo após a queda de seu regime em 2003. Diversos sunitas acreditam que o ex-presidente está sendo punido por americanos e seus aliados xiitas e curdos.Saddam e outros três acusados ficaram em greve de fome do dia 7 ao dia 23 de julho, quando Saddam teve que ser levado às pressas para o hospital para ser alimentado por sondas. O protesto ocorreu devido à falta de segurança de seus advogados.De acordo com o atestado dos advogados, Ramadan poderia achar mais de "mil pessoas de Dujail" que testemunhariam que nunca o viram na localidade. Ele também reclamou que o governo tem feito pouco para encontrar os assassinos dos advogados mortos, e ainda disse que se fosse solto da prisão encontraria estes assassinos "em cinco minutos".Junto de Saddam, a promotoria pede a pena de morte para Ramadan e ao meio irmão do ex-presidente e antigo chefe da inteligência do governo, Barzan Ibrahim.Ramadan foi o comandante do Exército Popular, criado no começo dos anos 70 como um braço armado do partido de Saddam, o Baath. O advogado de defesa disse que mesmo se o Exército Popular estivesse envolvido nos eventos de Dujail, nenhuma evidência foi apresentada que mostrasse o envolvimento de Ramadan com o caso.Texto atualizado às 17h33

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