Saddam volta ao tribunal e grita: abaixo Bush

O ex-presidente iraquiano, Saddam Hussein, compareceu a uma nova sessão de seu julgamento em Bagdá após um mês de boicote às audiências. Saddam não participava dos procedimentos desde que ele e os outros sete réus do caso se retiraram da corte em meio à discussões no dia 29 de janeiro, sob a alegação de que o tribunal é tendencioso.Os advogados do ex-líder iraquiano haviam dito anteriormente que ele manteria o boicote, mas Saddam apareceu no tribunal desta segunda-feira aos gritos de ?Abaixo Bush?. Saddam entrou na corte sozinho, posicionou-se de frente para sua cadeira e gritou, balançando o dedo em riste: "Abaixo Bush. Vida longa à nação". "Por que nos trouxeram à força?", ele gritou para o juiz. "Sua autoridade te dá o direito de julgar um réu à revelia. Você está tentando superar sua própria insignificância?", ele continuou."A lei será implementada", retrucou o juiz Abdel-Rahman. Segundo a agência de notícias Associated Press, desta vez Saddam compareceu ao tribunal vestindo uma túnica azul sob o terno, e não a camisa branca que vinha usando antes. O ex-líder iraquiano, cuja aparência, ainda segundo a AP, era de abatimento, teria afirmado também que fora forçado a comparecer ao tribunal. Em protesto, o meio irmão de Saddam e ex-chefe da inteligência iraquiana, Barzan Ibrahim, também acusado pelos crimes, se desentendeu com os guardas e passou a maior parte da sessão de costas para o juiz.Após o início turbulento da sessão, os promotores levaram à tribuna dois membros do regime de Saddam e apresentaram documentos que ligariam diretamente o ex-presidente às torturas e execuções realizadas em 1982 na vila xiita de Dujail. As duas testemunhas - Ahmed Hussein Khudayer al-Samarrai, chefe do gabinete presidencial, e Hassa al-Obeidi, um funcionário da inteligência iraquiana - reclamaram que foram forçados a testemunhar. Al-Samarrai, que esteve no cargo entre 1984 e 1991 e depois de 1995 até a queda do regime, em 2003, alegou não ter conhecimento do que ocorreu em Dujail. "Eu não me encaixo no papel de testemunha para essa caso", ele disse, tirando um sorriso de Saddam.Os promotores apresentaram um documento em Árabe datado de 1984 supostamente assinado por Al-Samarrai que dizia que Saddam retificava "as execuções dos detentos de Dujail". Perguntado se a assinatura era dele, Al-Samarrai disse não estar certo. "Eu não me lembro", ele disse. "Eu não me lembro de nada."Já Al-Obeidi, que trabalhou como gerente da agência de inteligência iraquiana de 1980 a 1991, disse que os guardas o forçaram a testemunhar, discutindo em seguida com os promotores e arrancando gargalhadas de Saddam. Após três horas de sessão, o juiz Raouf Abdel-Rahman adiou a corte para terça-feira.Saddam e os outros sete réus são acusados pela morte de 148 moradores da vila xiita de Dujail, em 1982. Todos negam as acusações.O correspondente da BBC em Bagdá Jon Brain diz que a acusação estava consciente de que a imagem dos bancos dos réus vazios poderia prejudicar ainda mais um julgamento que vinha se aproximando da farsa.O julgamento, que começou em outubro, sofreu atrasos e viu o assassinato de dois advogados da defesa e a renúncia do juiz Rizgar Amin. Vinte e seis testemunhas de acusação depuseram diante do tribunal. Muitos alegam ter sofrido torturas e anos de aprisionamento após uma tentativa frustrada de atentado contra a vida de Saddam na cidade de Dujail, em 1984, mas nenhum ligou diretamente o ex-presidente às acusações. Saddam Hussein e seus advogados acusam o novo juiz que preside o julgamento, Raouf Abdul Rahman, um curdo, de ser tendencioso.Veja vídeo do julgamento aqui.

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