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Saiba mais sobre as 12 horas de terror da família mórmon atacada no México

No México e em outros países, a notícia despertou a opinião pública e deu um novo rosto à crise de homicídios – em grande parte, dizem os parentes, porque eram uma família rica, composta por muitos cidadãos americanos

Azam Ahmed / The New York Times , O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2019 | 21h29

LA MORA, MÉXICO - Andre Miller viu a coluna de fumaça negra subindo a cerca de um quilômetro de distância. Momentos depois, disse, veio a explosão.

Ele correu pela estrada e encontrou um veículo utilitário esportivo tomado pelas chamas – o mesmo que sua cunhada, Rhonita Miller, estava dirigindo na segunda-feira de manhã, com seus quatro filhos. Ficou assistindo à cena horrorizado, sem conseguir se aproximar. O calor era muito intenso.

“Não conseguia chegar a menos de dez metros”, disse Andre Miller, 18 anos. “Não sabia dizer se eles estavam dentro do carro ou não”. Atrás das chamas, ele viu três homens armados fugindo. Eram 10h20 da manhã.

Foi a primeira e angustiante evidência de que algo terrível acontecera com a comunidade mórmon de La Mora, um pequeno lugarejo de pomares de frutas e nozes escondido entre as montanhas do norte do México.

Nas 12 horas seguintes, a família despedaçada correu para encontrar seus entes queridos e juntar as peças de uma tragédia que chocou o país e o mundo: o massacre de três mães e seis de seus filhos (entre eles, gêmeos de oito meses) em uma estrada deserta que suas famílias percorriam por décadas.

Uma das mulheres estava pronta para começar uma nova vida em Dakota do Norte com o marido. Outra planejava encontrar o marido para comemorar seu aniversário de casamento. A terceira estava se preparando para ir a uma festa de família.

Mas homens armados estavam à espreita, escondidos ao longo da cordilheira.

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Em duas diferentes emboscadas, uma a quilômetros da outra ao longo da estrada de terra, eles dispararam centenas de cartuchos de munição, a centenas de metros de distância.

Os cartuchos usados no primeiro local de emboscada mostram o caminho que os assassinos percorreram ao se aproximarem, com rifles de assalto, disparando enquanto desciam da colina para a estrada.

As autoridades disseram que o ataque parecia ser um caso devastador de equívoco de identidade, perpetrado por um cartel que confundiu a família com uma gangue rival. Se essa versão inicial do governo estiver correta, os assassinatos foram apenas uma questão de azar – andar de SUV, veículos semelhantes aos que geralmente são utilizados pelo crime organizado, por uma área perigosa.

Durante todos esses anos em que a guerra às drogas vem devastando o México, governantes, oficiais de segurança pública e muitos cidadãos mexicanos não se cansam de repetir um estribilho para tentar justificar as perdas incalculáveis: a violência geralmente atinge a vida dos criminosos, daqueles que estão envolvidos no cruel submundo do crime, daqueles que seguem o caminho errado.

Mas os assassinatos no leste de Sonora destroem esse argumento da maneira mais brutal.

Mesmo em um país tão assolado pela violência como o México, que vive seu ano mais mortal em mais de duas décadas, o assassinato de mães e crianças inocentes acaba com qualquer argumento de que o caos seja calculado, direcionado e, portanto, restrito.

No México e em outros países, a notícia despertou a opinião pública e deu um novo rosto à crise de homicídios – em grande parte, dizem os parentes, porque eram uma família rica, composta por muitos cidadãos americanos.

“Esse caso explodiu simplesmente por causa de quem somos”, disse Kenneth Miller, sogro de Rhonita Miller.

Enquanto os velórios de algumas das vítimas começavam, na quinta-feira, os parentes ainda estavam questionando a narrativa do governo sobre o ataque. Autoridades e investigadores disseram que o ataque a tiros fez com que o veículo de Rhonita Miller explodisse, incinerando ela e quatro de seus filhos com um calor tão intenso que restava pouco mais que ossos carbonizados, a carroceria do veículo e poças endurecidas do cromo derretido pelas chamas.

Mas, nas horas após a emboscada, os parentes disseram ter encontrado algumas evidências espalhadas ao redor do carro, como o talão de cheques de Rhonita Miller, sugerindo que os assassinos chegaram a vasculhar o veículo – talvez na tentativa de identificar as vítimas – antes de incendiá-lo.

A insensata perda de vidas impõe uma crise existencial ao México e a seu presidente, Andrés Manuel López Obrador.

Nas últimas semanas, uma onda de desastres escancarou implacavelmente a questão aos olhos do público: o assassinato de 14 policiais em um único confronto; um outro ataque a tiros que deixou 15 mortos; uma cidade inteira sitiada, em plena luz do dia, por quase 400 homens armados do Cartel de Sinaloa – o grupo criminoso liderado por Joaquín Guzmán Loera, conhecido como El Chapo. Nesse episódio, o cartel esmagou completamente as forças do governo mexicano, levando oito de seus membros como reféns e forçando-os a libertar o filho de Guzmán.

O presidente tem tentado apaziguar a nação dividida entre aqueles que apoiam seu impulso de não combater “fogo com fogo” e outros clamando por uma reação mais forte e proporcional.

A taxa de homicídios atingiu seu ponto mais alto desde que o país começou a coletar dados, e as famílias em todo o México sofrem caladas com o peso da perda.

Agora, as emboscadas lançaram uma gritante luz internacional sobre a violência, levando o presidente Donald Trump a prometer ajudar o México a “travar a guerra contra os cartéis de drogas e varrê-los da face da terra”, e deixando a comunidade mórmon de La Mora em farrapos.

“Acho que não voltarei aqui nunca mais”, disse Tyler Johnson, marido de Christina Langford Johnson, que morreu na segunda emboscada, mas cujo bebê de 7 meses, Faith, sobreviveu. “Não depois de tudo o que aconteceu”.

Agonia e medo

Andre Miller correu de volta para casa para contar à família o que tinha visto. Naquele momento, ele não sabia se Rhonita Miller havia saído do SUV com seus filhos.

Os homens se reuniram e correram para o local. Mas pararam perto da estrada de terra que sobe para as montanhas acidentadas do Estado de Chihuahua, com medo do que estava por vir. Andre Miller contara ao pai sobre os homens armados, e eles não podiam ignorar o risco de mais uma emboscada.

Perto dali, os homens de um cartel local que eles conheciam, Los Salazar, também começaram a se reunir. Depois do assassinato de dois mórmons em 2009, a comunidade aprendeu a coexistir com os membros do cartel. Os mórmons passaram a comprar combustível do cartel – um acordo mais forçado do que negociado – e os dois lados encontraram um arranjo pacífico, ainda que incômodo.

Os membros do cartel local também ouviram a explosão. E sabiam a possível razão para o ataque: os rivais de Chihuahua estavam reivindicando seu território.

Depois de esperar por reforços, os membros do cartel Los Salazar pegaram a estrada e foram em direção ao local da emboscada. Os mórmons foram atrás.

Enquanto o cartel local corria estrada acima para enfrentar seus inimigos, a família parou na estrutura fumegante do SUV, onde mal se podiam reconhecer os restos de Rhonita Miller e seus filhos.

As redes sociais começaram a fervilhar quando os familiares compartilharam as trágicas notícias no WhatsApp e postaram vídeos no Twitter, pedindo ajuda. Ao longo da estrada e em meio às montanhas, o sinal de celular é, na melhor das hipóteses, instável. Dentro de algumas horas, a família estava em pânico, preocupada com os outros SUVs do comboio de Rhonita Miller. Os veículos tinham saído de La Mora logo depois das 9h e não havia mais notícia desde então.

Parentes ligaram para a Embaixada dos Estados Unidos, a polícia federal, os gabinetes de dois procuradores-gerais do Estado e as Forças Armadas mexicanas, valendo-se de todas as conexões possíveis para organizar um resgate.

No final da tarde, Julian LeBarón e seu pai formaram uma equipe de busca e partiram da comunidade de LeBarón, a cerca de 3 horas e meia de carro, na esperança de encontrar as mulheres do outro lado da estrada.

Não está claro a que horas ocorreu a segunda emboscada – contra os dois veículos que levavam Christina Langford Johnson, Dawna Langford e seus filhos. O governo diz que aconteceu por volta das 11h, talvez uma hora depois que o carro de Rhonita Miller foi atacado. Nesse momento, as outras mães e seus filhos estavam cerca de 18 quilômetros adiante.

A estrada vai se estreitando conforme sobe as colinas íngremes. À esquerda, uma densa parede de musgo sobre a encosta. À direita, um penhasco profundo até o vale, onde nasce uma montanha imponente.

O local parece ter sido escolhido por sua vulnerabilidade. Ali, não é possível se proteger ou escapar de um ataque. Os veículos das mulheres que avançavam pela estrada eram alvos fáceis.

A algumas centenas de metros de distância, homens armados dispararam uma fuzilada contra o SUV de Dawna Langford, que viajava com seus nove filhos. Buracos de bala crivaram o para-brisa e o lado do passageiro. Uma criança pequena foi baleada no peito, outra no braço. Um garoto foi baleado na mandíbula.

Dois de seus filhos, Trevor, de 11 anos, e Rogan, de 3, morreram na chacina.

Christina Johnson, que viaja sozinha com a filha pequena, também foi atingida por tiros. Ela caiu alguns metros atrás do veículo, de acordo com imagens compartilhadas pela família.

Sua bebê permaneceu dentro do carro, coberta por uma manta, ilesa.

O relato dos eventos foi montado a partir de várias fontes – visitas aos locais das duas emboscadas, análise das mensagens e áudios de WhatsApp enviados entre os parentes e entrevistas com mais de uma dúzia de membros da família, entre os quais testemunhas dos ataques e, mais tarde, do resgate.

Não está claro se os assassinos pararam de atirar e deixaram que as crianças escapassem depois de atirarem em Christina Johnson – depois de perceberem que os veículos não estavam cheios de rivais – ou se simplesmente não conseguiram atingir as crianças.

Eles fugiram logo depois, correndo pela encosta da montanha, enquanto as crianças se escondiam no mato. Liderados pelo filho mais velho, Devin Langford, de 13 anos, eles escaparam do veículo e correram para o barranco em busca de cobertura, protegidos pelos arbustos das encostas.

Devin disse às outras seis crianças, entre elas sua irmã McKenzie, que iria voltar para La Mora e contar aos adultos o que acontecera. A jornada é árdua, com pedras grandes e solo arenoso, o que dificulta a viagem até para veículos com tração nas quatro rodas. Pelas trilhas a pé que Devin tomou, é ainda mais desafiadora, pelo menos 24 quilômetros de barrancos com plantas espinhosas e pedras rolando.

O garoto percorreu todo o caminho, chegando em La Mora um pouco depois das 17h, de acordo com a família. Eles formaram uma equipe de busca e correram para o local onde as crianças estavam escondidas.

A equipe de resgate de LeBarón finalmente chegou ao local da emboscada logo após às 19h. Eles encontraram as duas mães mortas: Dawna Langford no banco do motorista, caída sobre o volante, e Christina Johnson atrás do carro.

“Ela foi morta com as mãos para cima”, disse LeBarón.

Um lar despedaçado

Os parentes retiraram os corpos, puxando-os dos veículos e levando-os de volta a La Mora para o velório. Mesmo depois que as autoridades apareceram e vasculharam os locais de emboscada, dias depois, os parentes ainda encontraram evidências que os investigadores haviam ignorado: cartuchos de balas e o sapato perdido de McKenzie, atropelado pelos policiais a caminho da cena do crime.

Em uma grande oficina de madeira, a família construiu os caixões e recebeu um grupo de soldados e fuzileiros navais, enviados para sua proteção.

Dois dos viúvos ficaram sentados nos sofás dentro da casa, embrulhados em cobertores, com o rosto inchado e os olhos vazios. Os filhos brincavam no chão com bichos de pelúcia e brinquedos, enquanto a família comia ovos, batatas fritas e torradas.

La Mora estava perdida para os homens. Howard, o marido de Rhonita Miller, quis enterrar sua mulher longe dali, em LeBarón. O mesmo fez Tyler, o marido de Christina Johnson, dizendo que não aguentaria mais viver em La Mora.

A família acabara de dar uma festa de despedida para Christina Johnson naquela mesma casa. Ela decidiu deixar La Mora para se juntar a Tyler, que morava em Dakota do Norte. Embora adorasse criar os filhos em La Mora, no interior, cercada por lindas paisagens, eles sentiam falta de viver juntos.

No dia seguinte, ela partiu para LeBarón para cuidar do processo de mudança. As mulheres falaram sobre o medo da estrada e concordaram em viajar em comboio, por segurança.

Em geral, a comunidade se sentia segura – o cartel local a conhecia. Às vezes, seus membros saíam da montanha para ajudá-los a trocar pneus furados. E, além disso, os mórmons precisavam viajar. Tinham negócios e compromissos familiares para cuidar.

A avó de Christina Johnson, Virginia Sedgwick, que dividia o tempo entre La Mora e Utah, tinha se acostumado a vê-la correr de um lado para o outro, cheia de disposição.

Na festa, três vezes ela veio e abraçou Sedgwick, lembrou a avó, dizendo a ela o quanto a amava e como estava feliz por se mudar para um lugar novo, para morar com o marido, que trabalhava na indústria do petróleo.

“E ela foi mesmo para um lugar novo e muito bonito”, disse a avó. “A tristeza que sinto é porque não voltarei a encontrá-la, por enquanto”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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