Will Russell/Reuters
Will Russell/Reuters

Como um jovem imigrante muçulmano pode tirar a cadeira de Johnson no Parlamento britânico

Nas eleições gerais, o premiê concorre a uma cadeira por Uxbridge, um subúrbio do noroeste de Londres que já não é um lugar tão garantido para os conservadores quanto foi uma década atrás

William Booth e Karla Adam  / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2019 | 07h00

LONDRES - O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, lançou na quarta-feira a campanha de seu Partido Conservador para as eleições gerais. Mas há um problema. Johnson precisa reconquistar seu próprio assento – enfrentando um jovem imigrante muçulmano que representa o Partido Trabalhista. E pode ser uma disputa apertada.

Johnson concorre por Uxbridge, um subúrbio do noroeste de Londres que já não é um lugar tão garantido para os conservadores quanto foi uma década atrás. Na última eleição geral, em 2017, Johnson venceu sua disputa por apenas 5.034 votos. Se os trabalhistas conseguirem balançar 5% do eleitorado, o primeiro-ministro pode enfrentar problemas.

Os candidatos britânicos não precisam morar nos distritos eleitorais pelos quais concorrem, e Johnson não mora em Uxbridge, embora faça aparições e encontros ocasionais.

Isso o torna vulnerável, disse Ali Milani, 25 anos, candidato trabalhista, que ostenta suas credenciais como morador do local.

Milani vive em Uxbridge e no local frequentou a Universidade Brunel (onde era líder estudantil). Ele disse que o fracasso de Johnson em barrar a construção de uma terceira pista no aeroporto internacional de Heathrow – ele prometera se deitar na frente das escavadeiras – também prejudicará o primeiro-ministro.

Na noite de terça-feira, Milani foi de porta em porta no bairro de South Ruislip para pedir que as pessoas tirassem o assento de Johnson. Mais de cem militantes se juntaram a ele na peregrinação.

“É uma eleição histórica aqui. Pode ser a primeira vez que destituímos um primeiro-ministro em exercício. Aqui, temos o poder de deter Boris Johnson”, disse Milani ao tocar campainhas, seguido por fotógrafos e equipes de filmagem.

Johnson tem até 14 de novembro para se mudar para um lugar mais garantido – embora tal mudança pareça improvável, já que seus materiais de campanha já estão sendo enviados para as caixas de correio de Uxbridge e South Ruislip.

Johnson espera que a eleição de 12 de dezembro rompa o longo impasse sobre o Brexit e dê maioria ao seu partido, para que ele possa retirar o Reino Unido da União Europeia.

Milani veio de Teerã para Londres, com a mãe e a irmã, quando tinha 5 anos. A família morava em habitações públicas. Ele estudou com bolsas parciais.

Johnson, de 55 anos, nasceu em Nova York. Seu pai era diplomata e trabalhou em Bruxelas por um tempo. Sua mãe era artista. Ele estudou em Eton e Oxford. Antes de entrar na política, era jornalista de celebridades.

É difícil avaliar a inclinação dos moradores apenas por uma noite de campanha de porta em porta. Alguns disseram a Milani – com firmeza, mas polidez – que estavam apoiando Johnson. Outros aceitaram com prazer seus folhetos de campanha e disseram que sempre foram trabalhistas.

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Mas a maioria das batidas às portas ficou sem resposta – mesmo quando dava para ver que tinha gente em casa. Muitos dispensaram os militantes, dizendo que estavam ocupados com o jantar. Um sujeito parecia indeciso, mas, quando Milani perguntou quais idiomas ele falava e o homem respondeu “persa”, os dois se abraçaram e todos foram convidados para o chá.

Milani recusou. Mas, já de saída, observou: “Acho que conseguimos um voto aqui”.

Longe de Uxbridge, Johnson apareceu do lado de fora de sua residência oficial em Downing Street na quarta-feira e pediu aos eleitores: “Venham conosco, vamos fazer o Brexit e levar este país para frente”. A alternativa sombria – uma vitória trabalhista ou um Parlamento dividido – transformaria “todo o ano de 2020 (em) um show de horrores, com mais hesitações e atrasos”, alertou ele.

O tom alegre de Johnson marcou um forte contraste com o de outros conservadores que passaram a manhã de quarta-feira pedindo desculpas.

Nas 24 horas anteriores, dois parlamentares conservadores foram acusados de ofender as vítimas do incêndio da Torre Grenfell.

Enquanto isso, a campanha conservadora postava um vídeo adulterado de Keir Starmer, porta-voz trabalhista para o Brexit, conversando com Piers Morgan, da ITV.

“Por que a União Europeia ofereceria um acordo bom se ela sabe que vocês estão fazendo campanha contra?”, Morgan perguntou.

No vídeo editado, Starmer parece confuso e não diz nada. Na vida real, ele respondeu à pergunta.

O presidente do Partido Conservador, James Cleverly, disse que era um vídeo “divertido e satírico”. Os candidatos trabalhistas chamaram de propaganda enganosa.

Enquanto isso, o próprio Johnson foi criticado por comparar o líder trabalhista Jeremy Corbyn a um ditador soviético assassino.

Em um artigo para o Daily Telegraph, Johnson comparou Corbyn a Joseph Stalin, criticando o plano tributário de Corbyn e dizendo que estava mirando os bilionários com “um prazer e uma vingança não vistos desde que Stalin perseguiu os kulaks”, uma referência aos camponeses ricos que foram alvo do regime soviético no início do século 20.

Muitos disseram que Johnson havia ido longe demais, argumentando que um aumento na taxa tributária não podia ser comparado às atrocidades de Stalin.

Em uma entrevista à rádio LBC nesta semana, Jacob Rees-Mogg, o líder da Câmara dos Comuns, sugeriu que as 72 vítimas do incêndio de Grenfell teriam sobrevivido se tivessem usado o “bom senso” e ignorado o conselho da brigada de incêndio para ficar dentro do edifício.

Diante de imediata indignação, Rees-Mogg rapidamente pediu desculpas, dizendo: “O que eu queria dizer é que eu também teria ouvido os conselhos da brigada de incêndio para ficar em casa e esperar”.

Mas as coisas foram de mal a pior quando, horas depois, Andrew Bridgen, outro membro do Partido Conservador, defendeu Rees-Mogg.

Questionado por um entrevistador o que Rees-Mogg quis dizer com a frase “eu não teria morrido, porque teria sido mais esperto do que as pessoas que seguiram o conselho dos bombeiros”, Bridgen respondeu: “Queremos pessoas inteligentes dirigindo o país, não queremos?”.

Após uma nova avalanche de críticas, o próprio Bridgen pediu desculpas “totais”. Os dois conservadores “causaram muita dor e sofrimento às pessoas envolvidas”, Cleverly admitiu à BBC na quarta-feira de manhã.

Faltando poucas semanas para a eleição de 12 de dezembro, os conservadores de Johnson têm uma liderança folgada nas pesquisas, apesar das críticas pela falta de tato. Mas, como mostram os eventos recentes, tudo pode acontecer.

Em 2017, a então primeira-ministra Theresa May estava 20 pontos à frente nas pesquisas de opinião, mas acabou perdendo a maioria no Parlamento.

“Normalmente, as campanhas eleitorais não fazem muita diferença”, disse Tony Travers, especialista em política da London School of Economics. “Mas a última fez”.

As campanhas eleitorais no Reino Unido duram cinco semanas – um piscar de olhos em comparação às dos Estados Unidos – e, ao longo desse período, disse Travers, “sempre existe o risco de dar alguma coisa errada para qualquer partido ou de o humor do público mudar por algum motivo difícil de compreender”.

Se Johnson perdesse seu assento por Uxbridge – isso jamais aconteceu com um primeiro-ministro nos tempos modernos – ele provavelmente renunciaria, disse Travers. O partido poderia tentar a criação de uma vaga repentina e convocar uma eleição única para esse assento, “mas sempre há o risco de o eleitorado não gostar. Seria difícil vê-lo voltar ao Parlamento antes de uma eleição normal”.

Em teoria, Johnson poderia tentar administrar seu governo da Câmara dos Lordes, mas isso não acontece desde o gabinete de Robert Gascoyne-Cecil, há mais de 100 anos. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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