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Saída americana do Afeganistão abre caminho para disputa entre Rússia e China

Retirada das tropas americanas e avanço do Taleban abrem caminho para russos e chineses disputarem influência na região; enquanto Pequim aposta no seu peso econômico, Moscou usa cooperação militar

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

A retirada dos Estados Unidos do Afeganistão e o avanço fulminante do Taleban para controlar o país abriram o caminho para uma disputa de influência entre a China e a Rússia na Ásia Central. Enquanto Pequim aposta em colocar seu peso econômico na região, Moscou usa a cooperação militar com ex-repúblicas soviéticas para projetar sua influência. 

Especialistas indicam duas razões principais para a entrada de chineses e russos no cenário geopolítico afegão. A primeira é o próprio vácuo de poder deixado pelos americanos. Os russos viram nele uma oportunidade de projetar mais influência na região, já que o Afeganistão é cercado por ex-repúblicas soviéticas como o Tajiquistão, o Usbequistão e o Turcomenistão.

Por ser também um ponto de passagem entre o Oriente Médio, o sul da Ásia e a Ásia Central, o Afeganistão é também um ativo estratégico para China e sua Nova Rota da Seda, a rede de estradas, pontes, ferrovias e portos patrocinada pelo governo chinês em vários países na Ásia, Oriente Médio e África. 

O ressurgimento do Taleban na Ásia Central também preocupa chineses e russos, que têm um histórico de repressão a minorias islâmicas em seu próprio território. Mesmo as antigas repúblicas soviéticas da região estão na gênese de muitos movimentos radicais islâmicos que influenciaram o Taleban e a Al-Qaeda, como o MIU (Movimento Islâmico do Usbequistão).

“A crise no Afeganistão preocupa muito os países da Ásia Central, que têm problema com militantes islâmicos há décadas, que muitas vezes foram treinados pelo Taleban”, explica Vanda Felbab-Brown, pesquisadora do Brookings Instituton." A Rússia conseguiu do Taleban o compromisso de impedir esses militantes de agir na região e tem influência em termos financeiros e políticos entre lideranças políticas e tribais no Afeganistão para assegurar seus interesses.” 

Na semana passada, militares russos fizeram exercícios conjuntos com militares no Tajiquistão e no Usbequistão e anunciaram programas de parceria militar com as duas ex-repúblicas. Moscou tem se aproximado do Taleban desde 2018, na expectativa de o grupo impedir a infiltração de jihadistas em áreas de minoria islâmica na Rússia.

“A Rússia age para garantir a segurança de seus aliados na Ásia Central”, lembrou ao Financial Times o cientista político russo Arkadi Dubnov, especialista na região. “É uma questão de imagem. Putin tem de convencer seus aliados que só ele pode garantir sua segurança.”

A China, por sua vez, tem interesses econômicos e estratégicos no Afeganistão, e ambos foram facilitados pela saída de cena dos americanos. Dois projetos de infraestrutura da Nova Rota da Seda passam pelo Afeganistão: uma estrada que ligará Cabul a Peshawar, no Paquistão, e outra rodovia que conectará a província de Xinjiang, de maioria muçulmana, ao Afeganistão e ao Paquistão.

“Quando essas obras forem concluídas, Pequim poderá alcançar sua meta de aumentar o comércio e a extração de recursos naturais no Afeganistão”, afirma Derek Grossman, da consultoria Rand. “Estima-se que o país tenha reservas imensas de metais raros cruciais para a indústria de ponta chinesa.”

Os interesses chineses e russos na Ásia Central no entanto, não coincidem e podem gerar rivalidades no futuro. “A Rússia tem cumprido um papel de oferecer segurança a esses países e os define como área de influência”, acrescenta Vanda. “ A China tem feito ofensivas diplomáticas e econômicas na região, o que Moscou vê como contrário a seus interesses.” 

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