Saída de Barak leva trabalhistas à agonia política

Partido histórico, que abrigou em seus quadros principais nomes da construção do Estado de Israel, nunca esteve tão enfraquecido

Nathalia Watkins, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

Poucas mudanças devem ocorrer nos próximos meses na política israelense e dificilmente o processo de paz com os palestinos poderá sair da marcha lenta. Essas são as principais conclusões de especialistas depois da turbulência política vivida após o ministro da Defesa, Ehud Barak, deixar o enfraquecido Partido Trabalhista (Avodá) de Israel.

Embora tenha estreitado sua coalizão, que passa a ter 66 assentos no Parlamento em vez dos 74 anteriores à saída de Barak, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu conseguiu calar a única voz de centro-esquerda de sua base de governo. A Casa é composta por 120 assentos.

Com a divisão do partido, Barak garantiu sua permanência na pasta da Defesa. A crise entre os trabalhistas começou porque alguns membros ameaçavam deixar a coalizão caso não houvesse avanço no diálogo com os palestinos e estavam insatisfeitos com a liderança de Barak.

"Barak fez esta manobra para garantir sua manutenção no posto de Ministro da Defesa, já Netanyahu conseguiu fortalecer o bloco da direita. O premiê lidera um governo enxuto e coeso, que tornará difícil qualquer mudança na política externa ou avanço nas negociações com os palestinos", avalia Shlomo Egoz, especialista em política israelense da Universidade Bar-Ilan.

Mas, de acordo com Egoz, Netanyahu ficou mais vulnerável aos membros da coalizão. "Agora, se qualquer partido ameaçar deixar o governo terá o poder de acabar com a maioria no Parlamento e, assim, poderá derrubar o premiê." Na opinião dele, "nada deve mudar na política externa até as próximas eleições", que devem ocorrer dentro de dois anos e meio.

O Partido Trabalhista, ou "Avodá" em hebraico, ocupava 13 assentos no Parlamento, mas perdeu 4 membros além de Barak. Os oito deputados restantes ficaram em meio a uma crise que ameaça a legenda identificada com a criação do Estado de Israel.

"Apesar de o processo estar ocorrendo lentamente, (a ausência do Partido Trabalhista da política israelense) trata-se de um cenário inimaginável", diz Gideon Rahat, especialista em Ciências Políticas da Universidade Hebraica de Jerusalém. "É como se, no Brasil, o PT deixasse de existir."

Declínio. A história do Partido Trabalhista confunde-se com a história de Israel. A legenda é herdeira do Partido dos Operários, movimento de esquerda moderado que esteve no poder desde a criação do Estado, em 1948, até 1968, quando mudou o nome para Avodá.

A legenda continuou no poder até 1977, quando começou a concorrer com o partido direitista Likud, do atual premiê Binyamin Netanyahu.

Em 1992, os trabalhistas voltaram ao poder sob a liderança do primeiro-ministro Yitzhak Rabin. O assassinato do líder e o subsequente fracasso em ressuscitar o processo de paz iniciado por ele em Oslo, na Noruega, acabou culminando na segunda Intifada, em outubro de 2000.

Para o especialista em política israelense Avraham Diskin, da Universidade Hebraica de Jerusalém, o fim do processo de Oslo foi um fator decisivo na queda do Partido Trabalhista.

"Israel ofereceu (devolver) 98% dos territórios palestinos (ocupados). Estava disposto a ceder terra em troca de paz. Nem mesmo tamanha concessão foi bem sucedida. O Partido Trabalhista é tido como único responsável por esse fracasso e suas consequências."

Divergências internas e falta de uma liderança carismática também contribuíram para a crise, mas o especialista avalia que a principal razão para o declínio dos trabalhistas tenha sido a criação do Partido Kadima, por Ariel Sharon, em 2005.

Figuras importantes da política israelense do Likud e do Partido Trabalhista migraram para a nova legenda, entre eles o atual presidente, Shimon Peres, depois de 60 anos no Avodá. "O Kadima apresentou uma proposta mais realista e devolveu a esperança ao eleitorado centrista, que quer a paz, mas não acredita mais em parceiros palestinos para negociações. Eles são a favor da criação do Estado palestino para assegurar a existência de Israel", afirma Diskin.

No entanto, Shlomo Egoz acredita que a crise do Partido Trabalhista seja ainda mais profunda. Para ele, o processo pelo qual a legenda passa reflete um processo cultural, social e demográfico no país, iniciado ainda nos anos 60. "A nova geração do partido e dos eleitores não se identifica mais com os valores da social-democracia que o país precisava na época de sua fundação", diz.

A última vez em que o Partido Trabalhista esteve no poder foi entre 1999 e 2001, quando Barak foi premiê. Ao deixar a legenda, esta semana, Barak fundou seu próprio partido, denominado Haatzmaut, ou "Independência", em hebraico.

Na opinião de Gideon Rahat, o Avodá tem dois caminhos possíveis, "ou é enterrado no passado, de vez, ou sofre uma reviravolta". "O partido já chegou no fundo do poço", diz. O secretário-geral do Partido Trabalhista, Hilik Bar, aposta na segunda opção - vê o atual processo como o início da reestruturação da legenda. "A saída de Barak foi excelente, serve para renovar as forças. Muitos membros do partido estão voltando."

Em conversa com o Estado, pouco antes da primeira reunião da legenda sem Barak, Bar afirmou que o Avodá é "um partido com tradição, valores e história que está se renovando, dando oportunidade a jovens e competentes políticos".

Ele acredita que, em breve, o partido deverá se recompor e poderá voltar a crescer politicamente, "trazendo o eleitorado do Kadima de volta".

FIGURAS HISTÓRICAS

David Ben Gurion

Líder durante a Guerra Árabe-Israelense e primeiro chefe de governo de Israel, o sionista socialista participou da fundação do partido

Golda Meir

Fundadora do Estado de Israel, teve papel crucial na formação do partido, juntando a União do Trabalho e o Movimento de Esquerda para compor a legenda

Yitzhak Rabin

Eleito deputado pelo partido em 1973. No ano seguinte, assumiu o cargo de premiê. Líder da

legenda em 1992, voltou a chefiar o governo até seu assassinato, em 1995

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