REUTERS/Francois Lenoir
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Saída de diplomata britânico da UE divide governo May

Nome indicado para substituir o responsável por negociar saída da União Europeia desagrada a grupos pró-Brexit no Reino Unido 

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paul

04 Janeiro 2017 | 20h30

O pedido de demissão de Ivan Rogers, responsável por negociar a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, expôs a divisão sobre o tema no gabinete da primeira-ministra Theresa May. Para seu lugar, a premiê escolheu Tim Barrow, um diplomata de carreira, contrariando os defensores do rompimento com a Europa, que pressionavam por um nome eurocético para o cargo. 

A demissão de Rogers colocou o governo May em situação difícil, já que a premiê vem dando mostras de ainda não dispor de uma estratégia clara de desligamento do bloco político e econômico. Na carta na qual informou sua demissão, o embaixador convocou seus subordinados a “continuar a desafiar os argumentos mal fundados e os raciocínios nebulosos e pediu que não tenham medo de dizer a verdade aos que estão no poder”.

Em tom crítico, o embaixador insinuou que os líderes políticos que comandam o Brexit ainda não entenderam a complexidade da negociação. “Nós ainda não sabemos o que o governo fixará como objetivos na negociação para a relação entre a Grã-Bretanha e a União Europeia após a saída”, afirmou Rogers, confirmando uma crítica recorrente ao governo de Theresa May. “Experiência em negociações multilaterais sérias está em falta”, reiterou o diplomata. 

A repercussão negativa da demissão do diplomata britânico causou constrangimento para May, que não se manifestou em público sobre o assunto. O nome do eurocético Michael Grove chegou a ser um dos mais cotados. À noite, porém, o porta-voz de Downing Street, a sede do poder em Londres, anunciou o nome de Barrow para o cargo, uma escolha que ressalta o caráter técnico, e não político-partidário, do cargo. “Barrow é um negociador duro, com larga experiência em garantir os objetivos da Grã-Bretanha em Bruxelas”, afirmou o porta-voz. 

Em uma curta declaração aos jornalistas, Barrow se disse “honrado” com a nomeação para o cargo “nesse momento crucial”. 

Para analistas políticos britânicos, a rapidez com que a nomeação foi anunciada revela o alto nível de pressão que paira sobre o governo de Theresa May. Para evitar os lobbies políticos em favor da nomeação de mais um executivo eurocético para o cargo, a primeira-ministra teria dado uma resposta rápida. 

Mais pressão. Durante o dia, líderes empresariais e do setor financeiro advertiram para a perda representada pela saída do diplomata britânico e pediram à premiê a nomeação de um negociador experiente e com credibilidade.

Para Tony Travers, cientista político da London School of Economics (LSE), a saída de Rogers cria mais um problema para o governo de Theresa May em um momento delicado da preparação para o divórcio entre britânicos e europeus. 

“Rogers concluiu que não era possível continuar a trabalhar para o governo britânico. É um mau sinal, um problema a mais para Theresa May, em particular neste momento em que estamos a nove ou dez semanas da abertura dos dois anos de negociações para que a Grã-Bretanha deixe a União Europeia”, entende o pesquisador. “É importante para o governo britânico ter pessoas que conhecem muito bem o sistema de Bruxelas.”

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