Saída de Maliki facilitaria retirada

Eventual queda do primeiro-ministro iraquiano pode ampliar pressão pelo fim da participação dos EUA no conflito

Anne Geran, Associated Press, Washington, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2024 | 00h00

O primeiro-ministro Nuri al-Maliki deveria ser a tábua de salvação do governo do presidente George W. Bush no Iraque: um líder forte capaz de punir as facções briguentas e encurtar o prazo para que um Iraque independente possa cuidar de si mesmo. Depois de um período decepcionante de um ano e meio no cargo, Maliki ainda representa uma saída, mesmo para aqueles que o vêem como a personificação da paralisia política que as tropas americanas não conseguem mudar."Essa frustração poderá se tornar uma estratégia de retirada", disse Carlos Pascual, diretor de estudos de política externa do Brookings Institution, centro de estudos com sede em Washington. "O fato de o Iraque não cumprir sua parte no trato poderia ser usado como desculpa para essa retirada."O futuro de Maliki poderá ser ainda mais sombrio. O primeiro-ministro poderá facilmente tornar-se um bode expiatório em Washington, principalmente se continuarmos com a impressão de que até a Casa Branca perdeu o entusiasmo por ele.Democratas, loucos para abandonar a guerra o mais rápido possível; republicanos, discordando cada vez mais da estratégia de Bush no Iraque; e os candidatos à presidência pelo Partido Republicano procurando formas de se afastar de um presidente impopular podem colocar Maliki em situação difícil. Com o prazo para a apresentação de um relatório sobre o progresso dos EUA no Iraque se esgotando - o general David Petraeus deve dar satisfações ao Congresso em setembro -, Bush esperava mostrar que a coalizão formada por Maliki finalmente usou a proteção das tropas americanas para aprovar leis simbólicas como a que divide os lucros do petróleo. Até agora, isso não aconteceu.No momento, há 162 mil soldados no Iraque, dos quais 30 mil chegaram em fevereiro como parte da nova estratégia de Bush para estabilizar Bagdá e pressionar os líderes iraquianos a construir um governo de unidade nacional. Desde então, o esforço militar para estabilizar o país avançou nos últimos meses, mas o progresso político ainda está atrasado. O relatório de setembro, um divisor de águas, dará início a um debate político sério sobre a retirada.Na quarta-feira, a senadora Hillary Clinton, pré-candidata democrata à presidência, juntou-se ao senador Carl Levin, também democrata, para pedir ao Parlamento iraquiano que se livre de Maliki.Novas conjecturas sobre o destino do premiê iraquiano estão sendo feitas desde segunda-feira, quando Levin classificou o fragmentado governo de coalizão de Maliki como sendo "inoperante". Um dia depois, Bush e o embaixador dos EUA no Iraque, Ryan Crocker, criticaram a estagnação política no país. O presidente chegou a dizer que caberia ao povo iraquiano decidir se o governo deles merece ou não ser substituído.Depois que Maliki respondeu, dizendo que "não prestaria atenção" em seus críticos americanos e que, se necessário, "encontraria amigos em outro lugar", Bush tentou se reaproximar do premiê iraquiano. Disse que Maliki era "um bom rapaz" e que apoiava o líder xiita. "Enquanto eu for o comandante, lutaremos para vencer", disse. O problema é que o xiita Maliki é visto como sectário demais por seus rivais e como fraco demais por seus partidários. Por isso, o primeiro-ministro tem falhado na tentativa de conciliar os dois lados.O destino de Bush está amarrado ao de Maliki, já que o apoio dos EUA à guerra diminuiu e a violência espalhou-se entre os principais grupos sectários e étnicos do Iraque. Ano passado, o presidente fez questão de arregimentar forças em torno de Maliki, principalmente quando houve o vazamento de um memorando do consultor de segurança nacional da Casa Branca que questionava as habilidades do primeiro-ministro.A partir daí, membros do alto escalão da Casa Branca passaram a expressar livremente seu descontentamento com o desempenho de Maliki e com o de outros políticos iraquianos. Um deles foi Crocker, na terça-feira. No entanto, parece haver pouca vontade política entre as autoridades americanas para substituir Maliki.Os candidatos a líder no Iraque poderiam ser ainda menos eficazes ou levar meses para formar as alianças necessárias para conseguir algum avanço concreto. O processo de escolha de um novo líder também poderia repetir os angustiantes meses de disputa eleitoral que desgastaram a imagem dos EUA, no início do ano passado.

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