Daniel LEAL-OLIVAS / AFP
Daniel LEAL-OLIVAS / AFP

Saída de May não resolve Brexit e deixa duro legado a sucessor

Enquanto as chances para um acordo de saída da UE ficam mais remotas, a libra continua caindo 

The Economist*, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2019 | 01h00

Historiadores podem vir a ser um pouco mais gentis com Theresa May do que os atuais analistas políticos. Confrontada com as penosas negociações que o Brexit exigia, May recusou-se a aceitar os compromissos necessários até ser tarde demais – com os adversários endurecendo suas exigências e os compromissos sendo dados como perdidos. 

Muitos adeptos do Brexit acreditam que exista uma solução perfeita, sem custos, para a saída do Reino Unido da UE, mas essa solução estaria sendo negada a eles por uma mistura de incompetência e manobras conspiratórias. Ao mesmo tempo, muitos defensores da permanência, embalados pelos constantes recuos do governo, entendem que o Brexit pode ainda ser totalmente cancelado. 

Essa polarização é um legado de May que vai perseguir seu sucessor. Após o plebiscito, quase três anos atrás, muitos “brexiteers” – como são chamados os defensores da saída imediata do bloco europeu – teriam aceitado um acordo pelo qual o Reino Unido deixaria o Mercado Comum e suspenderia o livre trânsito de trabalhadores, mantendo como único laço com a UE a união alfandegária. A maioria agora vê tal solução como uma traição intolerável (não importando que alguns ainda não estejam certos de que exista uma união alfandegária). 

Do mesmo modo, muitos adeptos da permanência poderiam antes se satisfazer apenas com a perspectiva de uma união alfandegária, desde que ela estivesse ligada a uma votação no Parlamento sobre a possível convocação de um segundo plebiscito. Entretanto, quando May tardiamente ofereceu tais possibilidades na semana passada, elas foram rejeitadas por ambos os lados como inadequadas. 

A meta para compromissos foi drasticamente reduzida ao nível de 2016. O diálogo com a oposição trabalhista e indícios de votos dos parlamentares sobre possíveis opções ao Brexit levaram a nada, em parte porque as conversações começaram muito tarde. May herdou um país dividido que precisava ser urgentemente unificado. Sua abordagem apenas afastou mais as duas tribos.

Uma mudança de líder pode dar novo impulso às negociações no Parlamento, paralisadas nas últimas semanas, apesar de a UE pressionar o Reino Unido a seguir com elas. Boris Johnson, favorito entre os conservadores que vão escolher o próximo líder do partido, representa uma aposta arriscada para o país. Mas pode ter, mais do que May, a flexibilidade política e ideológica necessária para tirar o Reino Unido da armadilha em que entrou por vontade própria. 

Ninguém imagine que a renúncia de May vá resolver o problema do Brexit. Johnson propôs renegociar o acordo de saída, mas é quase certo que a UE recuse sua proposta. 

Internamente, a maioria dos adeptos da saída detesta tão veementemente o atual acordo que preferiria sair mesmo sem nenhum acordo (outro terrível legado de May, que passou dois anos dizendo que o Reino Unido prosperaria mesmo sem um acordo para, no fim, admitir que estava errada). 

Partidos arrivistas contra ou a favor do Brexit estão empurrando trabalhistas e conservadores para os extremos. A possibilidade de um entendimento transpartidário parece mais remota do que nunca. E, enquanto as chances para um acordo ficam mais remotas, a libra continua caindo. May teve um mandato difícil. O de seu sucessor não será mais fácil. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ  

© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.