'Saída dos EUA foi um desastre no Afeganistão'

Para especialista, disputa entre os dois candidatos em 2º turno deve mostrar posição do Taleban e autonomia do Exército

ALESSANDRO GIANNINI, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2014 | 02h02

Resultados preliminares do 2.º turno da eleição presidencial no Afeganistão colocam Ashraf Ghani, ex-funcionário do Banco Mundial, bem à frente da disputa. Mas o seu rival, o ex-ministro das Relações Exteriores Abdullah Abdullah, rejeitou o resultado, acusando o rival de fraude. Para o analista de política internacional paquistanês Ahmed Rashid, o desfecho das eleições vai determinar como o país se comportará no futuro sem a presença significativa dos EUA, com forças de segurança ainda em treinamento e sujeito à instabilidade do Taleban. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Por que é tão difícil fazer uma eleição no Afeganistão?

O Afeganistão está em guerra há 35 anos. Tivemos uma ofensiva do Taleban durante o segundo turno das eleições e resultou em muitas mortes. Há grandes preocupações com o fato de que, apesar de os americanos estarem lá há mais de dez anos, as instituições do Estado ainda são muito fracas, a democracia é muito fraca, ainda há grandes rivalidades étnicas dentro do país e continua sendo um lugar muito frágil. Infelizmente, a decisão de os americanos tirarem suas forças ainda este ano foi um desastre, porque eles deveriam esperar pelo menos até depois das eleições. O fato de que havia 150 mil soldados no Afeganistão no ano passado e agora temos 30 mil aponta para o fato de que pressão e influência internacional eram necessários para manter a eleição livre e justa. E isso não está acontecendo, em razão da insistência da Otan e dos americanos em ir embora com tanta pressa.

O senhor acha que as forças de segurança afegãs não estão preparadas para administrar o país?

Acho muito cedo para dizer se as forças de segurança podem fazer isso. Nós não sabemos a resposta a essa pergunta até os americanos saírem e ver o que o Taleban vai fazer. E o Taleban vai esperar pelo desfecho dessa eleição. Com a escolha do presidente e a decisão tomada, os outros países vão aceitar o novo presidente. O Taleban está esperando, tanto quanto todos mundo, para saber qual será o desfecho dessa "festa política". Acho que é muito cedo para dizer se as forças afegãs conseguirão se segurar, se vão fazer frente ou não a uma possível ofensiva Taleban. O que vimos nos últimos meses foi o Exército (afegão) perder muitos territórios, no sul especialmente, mas ao mesmo tempo também foi capaz de se defender de ataques do Taleban e não se render incondicionalmente.

Qual a responsabilidade do presidente Hamid Karzai na situação atual do Afeganistão?

Karzai está tentando influenciar as eleições... Lembre-se de que toda a infraestrutura do Estado, que está promovendo as eleições, está sob o controle de Karzai. Então, acho que o presidente tem muito a responder, especialmente por que essa influência apareceu no segundo turno, que agora se tornou essa grande disputa. O problema é que Karzai quer uma posição política mesmo depois de deixar de ser presidente. Acho que ele está tentando continuar a ser um grande ator na cena política pós-eleição. Quer ser influente, mesmo depois de o novo presidente ser escolhido e assumir o gabinete. E aí está o problema. Vimos o mesmo acontecer com o presidente (Vladimir) Putin, na Rússia. Talvez Karzai esteja buscando uma oportunidade de voltar ao poder, após o mandato de cinco anos do novo presidente terminar. Infelizmente, esse é um dos problemas: Karzai querendo ter um papel e tentando ser influente. Por isso, acho que ele se recusou a assinar o acordo com os americanos, pois se tivesse assinado teria se tornado um presidente dispensável. Ao não assinar o acordo, isso significa que todos teriam de adulá-lo. Infelizmente, o Afeganistão sofre com tudo isso.-

E quanto a Abdullah Abdullah e Ashraf Ghani, o que se pode esperar dos candidatos que disputam o poder no Afeganistão?

O acordo proposto por (John) Kerry (secretário de Estado dos EUA) é que haveria uma espécie de divisão de poder entre os dois candidatos. Mas acho que isso vai ser difícil, porque eles dois não se dão nada bem. Primeiro, temos que ver o que vai acontecer. Cerca de 8 milhões de votos devem ser recontados. Nos próximos meses, ainda vamos testemunhar muitos problemas associados com a recontagem dos votos. E então há toda essa questão sobre se será possível uma coalizão após as eleições. Porque, como eu disse, a própria contagem vai criar muitos problemas entre os candidatos.

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