Luiz Raatz/Estadão
Luiz Raatz/Estadão

Saída pela divisa com a Colômbia também é intensa

Venezuelanos buscam no país vizinho produtos escassos ou mesmo uma nova vida longe de uma economia agonizante

Luiz Raatz, Enviado Especial / San Cristóbal, Venezuela, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2016 | 06h00

SAN CRISTÓBAL, VENEZUELA - Dois meses depois da reabertura da fronteira entre Venezuela e Colômbia, cerca de 30 mil pessoas, na estimativa da polícia venezuelana, atravessam a ponte para Cúcuta todos os dias. A maioria delas busca no país vizinho alimentos, remédios e divisas para fugir da profunda crise econômica da Venezuela. Isolada geograficamente das principais cidades do país, San Cristóbal ficou cerca de um ano com a fronteira fechada, o que agravou a falta de produtos, autopeças, combustível e remédios na região.

Um dos maiores atrativos da fronteira colombiana é a possibilidade de fugir da inflação trocando o desvalorizado bolívar por pesos colombianos. Algumas casas de câmbio de Cúcuta aceitam a moeda venezuelana - mas somente as notas de 100 e 50 - e a trocam por pesos. Sem a possibilidade de depositar seus bolívares no banco - não há investimento que os proteja da inflação de 500% ao ano -, muitos moradores de Táchira preferem comprar a moeda colombiana. É o caso do policial da reserva José Suárez.

“É comum em Cúcuta você ver os venezuelanos chegando às casas de câmbio com sacos de dinheiro e saindo com um pequeno monte de pesos”, disse. O governador de Táchira, o chavista José Vielma Mora, acusou nesta semana as casas de câmbio de Cúcuta de desvalorizar propositalmente a moeda venezuelana, como parte da “guerra econômica” da oposição venezuelana contra o presidente Nicolás Maduro.

Na fronteira, muitos escolhem ir embora de vez do país. Atravessam a ponte com malas, em busca de uma vida melhor. Até a fronteira, o caminho não é fácil. A sinuosa estrada que dá acesso à ponte é perigosa, estreita e sujeita a deslizamentos. O caminho é vigiado por ao menos três postos de controle da Guarda Bolivariana, que fiscaliza carros, ônibus e pessoas em busca de contrabando.

Em San Antonio de Táchira, só se pode atravessar a ponte para a colombiana Cúcuta caminhando. Na manhã de sexta-feira, Angélica (que não quis dar o sobrenome) se preparava para abandonar a Venezuela. Juntou dinheiro por meses como ambulante para tentar comprar uma passagem de ônibus para Bogotá, onde pretende estabelecer-se para uma vida nova. “Às vezes o que eu ganhava por dia no trabalho não dava para o almoço e para o jantar. Tinha de escolher”, explica. “E no almoço era ou sopa ou um prato simples. Nunca os dois.”

A vendedora contou ainda que nos últimos meses tem sido impossível encontrar açúcar, farinha de milho, sabonete, papel higiênico e xampu na Venezuela. Quando a fronteira abriu, as pessoas foram em massa comprá-los na Colômbia. Antes de se chegar ao controle migratório, há mais três postos do lado venezuelano para verificar os pertences de quem deixa o país. Um do escritório antidrogas, outro da receita federal venezuelana - e , por fim, o de migrações. Na sexta-feira, a oferta da vez em Cúcuta eram pneus e baterias de carro. “Consegui comprar uma bateria por 6 mil bolívares (dez vezes menos do que em Caracas)”, contou Javi Vera, mecânico de 43 anos.

O clima, na fronteira, é pesado. Câmeras de vigilância monitoram quem vai e quem volta da Colômbia. Muitas pessoas vêm de Estados mais distantes, como Barinas, terra de Hugo Chávez, para fazer compras ou simplesmente deixar o país. A última mensagem está no outdoor na entrada da ponte. Um sorridente Chávez saúda os que deixam a República Bolivariana da Venezuela.

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