Sakineh pode ser morta em breve, alerta Anistia

Segundo ONG, sentença de apedrejamento contra iraniana continua em vigor, apesar das declarações de Teerã de que ela seria enforcada

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

A Anistia Internacional emitiu ontem um alerta de que Sakineh Ashtiani, iraniana condenada à morte, pode ser executada "a qualquer momento". Contrariando as declarações do governo iraniano - que indicou que ela não seria apedrejada e sim enforcada -, a entidade afirmou que a sentença de morte por apedrejamento continua em vigor.

Sakineh foi condenada por adultério, mas depois teve seu caso revisado e passou a ser acusada também pelo assassinato do marido. Teerã afirmou que ela só teria a vida poupada se a família da vítima a perdoasse. No entanto, para a Anistia Internacional, a suposta revisão do processo seria apenas uma forma para desviar a atenção que outros países e grupos de direitos humanos manifestaram pelo caso.

O Estado apurou que a sentença final seria anunciada hoje. Mas, diante da pressão internacional cada vez maior, o governo adiou mais uma vez o anúncio e indicou que o veredicto pode ser conhecido no domingo. ONGs acusam Teerã de estar distorcendo as informações. "Isso é uma manipulação", afirmou Mina Ahani, refugiada iraniana na Europa que coordena o grupo de apoio a Sakineh. "Trata-se de um governo fascista que muda regras dependendo da conveniência."

De acordo com ela, a família do marido assassinado, por meio de seu próprio advogado, já declarou que não quer o enforcamento de Sakineh. "A Justiça já sabe dessa posição. Não há por que ainda ter alguma dúvida. Se era só disso que dependia a vida de Sakineh, então estaria tudo resolvido."

Em seu comunicado, a Anistia alerta ainda que a revisão do caso na Corte Suprema, que começou no dia 4, é apenas "uma tentativa das autoridades de reduzir a pressão internacional".

Pedido americano. Na terça-feira à noite, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, juntou-se ao grupo que pede que Sakineh seja perdoada e apelou para que Teerã interrompa a "execução iminente" da iraniana. "Continuamos preocupados com o caso de Sakineh", disse Hillary. A secretária de Estado ainda citou o caso de um garoto de 18 anos que pode ser executado após ser condenado por homossexualismo, além de outros três prisioneiros políticos.

Para ela, os casos não foram conduzidos com transparência nem seguiram as próprias leis do Irã. "O governo dos Estados Unidos pede ao Irã que pare com essas execuções, de acordo com a Convenção Internacional de Direitos Civis e Políticos", afirmou Hillary.

Presa desde 2005 por adultério, Sakineh já foi condenada a 99 chibatadas em 2006 e, em 2007, voltou a ser condenada à pena de morte por apedrejamento. Hoje, está sem sua principal defesa, já que seu advogado, Mohammad Mostafaei, fugiu para a Turquia e recebeu asilo na Noruega há uma semana diante das intimidações de Teerã.

O governo do Irã autorizou que os filhos de Sakineh a visitassem hoje na prisão. No sábado, a iraniana receberá a visita de um advogado. No domingo, a corte realizaria uma audiência para anunciar a sentença final no caso. No entanto, segundo Mina Ahani, o cronograma ainda pode mudar. "Tudo isso é uma agenda em teoria", alertou Mina.

PARA LEMBRAR

Em 31 de maio, em evento de campanha da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, ofereceu ao Irã receber Sakineh Ashtiani no País. Na terça-feira, autoridades iranianas rejeitaram formalmente a proposta, afirmando que nenhuma nação envia "um criminoso" para ser solto em outro país.

Família de iraniana é alertada a não falar com imprensa

Sajad Qaderzadeh, filho de Sakineh Ashtiani - iraniana condenada à morte -, foi interrogado pela polícia após ter dado entrevistas a três jornais estrangeiros, entre eles o "Estado". Segundo a Anistia Internacional, Sajad foi alertado a parar de falar com a imprensa estrangeira. A ativista iraniana Mina Ahadi afirmou que o contato da mídia com a família de Sakineh havia de fato "causado um grande problema". Segundo a Anistia Internacional, o Irã tem um dos maiores índices de execução do mundo. Só em 2009, 388 pessoas foram mortas, 14 delas em atos públicos. Pelo menos uma foi executada por apedrejamento. A entidade indica que, desde 2002, ao menos seis pessoas foram apedrejadas sob a acusação de "adultério".

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