REUTERS/Rodrigo Urzagasti
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Salário baixo e indignação levaram polícia de Santa Cruz a se voltar contra Evo

Insatisfeitos com as denúncias de fraude eleitoral e sem poder fazer ‘bicos’, policiais iniciaram movimento que se espalhou pela Bolívia e ajudou a forçar a renúncia do presidente

Ricardo Galhardo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2019 | 22h00
Atualizado 18 de novembro de 2019 | 11h01

SANTA CRUZ DE LA SIERRA - Não foi apenas o sentimento de dever cívico despertado por suspeitas de fraude eleitoral que fez com que a Polícia Nacional em Santa Cruz de La Sierra decidisse se amotinar contra o governo Evo Morales levando à queda do governo. Segundo o comandante da corporação local, coronel Miguel Mercado, o mal-estar da tropa começou com a ordem de aquartelamento que seguiu a eleição de 20 de outubro. Aquartelados, os policiais não podiam usar os dias de folga para fazer os bicos que complementam o salário baixo, um dos menores do continente.

“A polícia boliviana é uma das que recebem menor remuneração em toda a região. A maior parte dos policiais faz seu serviço e depois trabalha em outra coisa. São motoristas de táxi ou têm os próprios negócios. Este problema social da Bolívia é muito grande”, disse o coronel ao Estado na sede do comando da Polícia Nacional em Santa Cruz.

O motim policial em Santa Cruz foi anunciado no dia 9 pelo presidente da Associação de Soldados, Cabos e Sargentos, Javier Trigueiro. No dia seguinte, pressionado pelo comando das Forças Armadas e os protestos organizados em sua maioria por jovens, Evo renunciou.

Segundo Mercado, durante as três semanas em que a tropa ficou aquartelada ou mobilizada em cidades do interior para evitar distúrbios políticos, o mal-estar provocado pela impossibilidade de fazer bicos se somou à indignação cívica. 

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“O desgaste foi este. Afetados por muito tempo de aquartelamento, a maior parte começou a mostrar um mal-estar que piorou quando se falou que existiam fraudes. Os policiais diziam que não podiam trabalhar defendendo a ilegalidade”, disse o coronel.

O piso salarial da polícia boliviana é de menos de B$ 2,4 mil, equivalentes a R$ 1,5 mil. No topo da carreira, os vencimentos chegam a B$ 14 mil (R$ 8,7 mil). 

Esta não foi a primeira vez que a insatisfação salarial da polícia levou à queda de um governo na Bolívia. “Em 2003, quando o governo Sánchez de Lozada caiu, os policiais se amotinaram do mesmo jeito. Por quê? Porque lhes tiraram B$ 50 (para impostos). Isso é muito dinheiro para um policial. Representa o pão de uma semana”, lembrou Mercado.

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O governo Evo ainda tentou conter o descontentamento depositando B$ 3 mil nas contas de 36 mil policiais de baixa patente, mas era tarde demais. A imagem do sargento Trigueiro anunciando o motim em meio aos líderes do Comitê Cívico pró-Santa Cruz, principal polo da oposição a Evo, viralizou e uma onda de motins policiais se espalhou por vários departamentos. 

Para analistas, a revolta da Polícia Nacional em Santa Cruz foi tão importante para a queda do governo quanto as manifestações populares lideradas pelo presidente do comitê cruzenho, o advogado Luís Fernando Camacho, que também se espalharam para o restante do país.

Com aproximadamente 3,3 milhões de habitantes, Santa Cruz, a cidade mais rica da Bolívia, é historicamente um reduto de oposição ao governo central de La Paz. O Comitê Cívico nasceu em 1950 de uma demanda local por mais participação na divisão dos impostos federais. Na época, o departamento recebia 1% do montante. Após forte mobilização passou a receber 11%.

A demanda por maior autonomia em relação à capital gerou ao longo das décadas várias tentativa de sublevação. A última foi em 2009, quando o Comitê hoje presidido por Camacho liderou a chamada Meia Lua, formada pelos departamentos do leste boliviano (Tarija, Santa Cruz, Beni e Pando) numa tentativa de ganhar autonomia em relação a La Paz que terminou em acordo.

As diferenças em relação a La Paz vão além da política e têm componentes, geográficos, étnicos, religiosos e econômicos. Ao contrário dos departamentos do Altiplano, Santa Cruz fica na planície amazônica, fazendo fronteira com o Brasil. A economia tem como base o agronegócio e a indústria (responde por 25% do PIB e produz 70% dos alimentos da Bolívia) e a população tem origem guarani ou europeia, autodenominada “camba”, enquanto no Altiplano a população é em sua maioria de indígenas quíchua ou aimara. 

A eleição de Evo com a bandeira de valorização das comunidades indígenas acentuou essas diferenças. O componente racial é um elemento importante na política boliviana. Mas, para o vice-presidente do Comitê Cívico, o médico Romulo Calvo, a cidade reflete mais a cultura inter-racial do que o Altiplano. “Somos a quarta cidade com maior crescimento demográfico do mundo. Aqui em Santa Cruz temos todos os componentes de uma cultura cosmopolita”, disse. 

“Há um pequeno grupo racista, mas não é determinado como corrente política”, completou o secretário departamental de governo, Vladimir Peña.

Outro fator diferencial é o cristianismo. Por toda Santa Cruz é possível ver símbolos cristãos. Não foi por acaso que Camacho escolheu o Cristo Redentor como local para as mobilizações nas quais fazia discursos por vezes histriônicos com uma Bíblia na mão. Mas, segundo Peña, o uso de símbolos religiosos é uma característica pessoal de Camacho. “Em Santa Cruz há maior ligação com os símbolos cristãos, mas o que nos move politicamente não é a religião. Camacho deu este impulso, mas a Bíblia não foi determinante para isso”, afirmou.

Peña e Calvo refutam a possibilidade de o movimento civil que ajudou a derrubar Evo se transforme em uma alternativa política, mas admitem que o nome de Camacho está na boca do eleitorado.

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