Omar Sanadiki/Reuters
Omar Sanadiki/Reuters

Salvem nossas relíquias históricas

Membros do Estado Islâmico têm destruído sítios arqueológicos e vendido antiguidades da Síria e do Iraque como forma de obter fundos para a guerra

THE ECONOMIST

14 de junho de 2015 | 03h00

Desde que Abrahão adotou o monoteísmo e destruiu os ídolos de seu pai, o Oriente Médio sofreu mais do que devia com o vandalismo cultural. O profeta Sansão, antecessor do homem-bomba moderno, pôs abaixo um templo pagão repleto de filisteus. Iconoclastas destruíram imagens sagradas bizantinas. Os seguidores de Muhammad ibn Abd al-Wahhab saíram da península árabe no início do século 19, saquearam templos xiitas do Iraque em Najaf e Kerbala. 

Segundo eles, a veneração desses cemitérios encorajava os muçulmanos a adorarem homens, e não Deus. Portanto eram lugares de “shirk”, ou politeísmo. Quando, na década de 20, capturaram as cidades sagradas de Meca e Medina, destruíram os túmulos dos companheiros, viúvas e parentes de Maomé. Apenas o túmulo do profeta foi poupado.

Quando a Primavera Árabe de 2011 ocorreu em meio ao caos e à guerra, a doutrina se propagou. Abu Qatada, islamista radical deportado pela Grã-Bretanha para a Jordânia em 2013, redigiu uma fatwa de 44 páginas pronunciando que mesquitas construídas sobre túmulos deviam ser queimadas.

 

Centenas de sítios históricos, de Trípoli, na Líbia, a Tikrit, no Iraque, perderam seus santuários. Os jihadistas atacaram turistas em monumentos pagãos, investiram contra o Museu Bardo de Túnis com sua coleção inigualável de mosaicos romanos em março (em 1997, atacaram Luxor). Em 10 de junho, ocorreu um novo ataque suicida em Luxor, mas não houve mortes. 

Os vândalos do Estado Islâmico invocam o nome de Abrahão quando destroem com marretas os lamassus, bois alados com cabeças humanas (da antiga Mesopotâmia), ou atiram nas cabeças de Gorgon (medusa) adornando os palácios de tiranos assírios que se consideram Deus.

A escala não tem precedentes. Quatro dos seis sítios considerados patrimônio mundial na Síria estão em ruínas. Em maio o EI capturou um quinto, a cidade antiga de Palmyra, famosa por suas mil colunas. Ao que parece até agora o EI não danificou o sítio, embora tenha se apossado há pouco tempo da cidade. Mas os arqueólogos temem por Palmyra, e pelas cavernas adornadas de esculturas de Petra, próximas de um outro viveiro de partidários do EI, a cidade jordaniana de Maan. Ao longo da costa líbia, os jihadistas estão a uma distância de tiro das cidades romanas mais preservadas do mundo, Cirene, Magna e Sabratha.

A justificação para tudo isso tem aturdido os estudiosos. Muhammad pôs fim a muitos rituais antigos na Caaba em Meca, mas permitiu que os fiéis perambulassem em torno do cubo de granito. Seus companheiros nos quais o EI alega ter como modelo, pouparam as pirâmides. Ibn Jubayr, escritor medieval, ficou tão maravilhado com os templos do vale do Nilo que “passar a vida inteira maravilhando-se com seus ornamentos, decoração e beleza ainda seria muito pouco”. O próprio Ibn Abd al-Wahhab deixou-os ali, ignorando-os.

A própria literatura do EI oferece poucas pistas. Sua revista mensal, Dabiq, sugere que tudo se resume a um mero prazer. A destruição “serviu para enraivecer os kuffar (os descrentes)”, declarou em sua edição de março, “um feito que em si é amado por Alá”.

Os arqueólogos iraquianos oferecem explicações mais mercenárias. Ao divulgar seus ataques à oferta, o EI espera aumentar a demanda. Segundo um negociante, as autoridades de Israel aprovaram que comprasse antigas inscrições hebraicas de qualquer proveniência, tão temerosas de perder as antiguidades para sempre. Revelador é o fato de que os jihadistas que atacaram o museu de Mossul com motosserras no início do ano não mostraram a destruição dos muitos artefatos preciosos, diz um arqueólogo de Mossul, pois já tinham sido contrabandeados para o exterior. 

Enquanto exploravam os melhores sítios eles permitiam que contrabandistas banais explorassem outros lugares, recebendo 20% dos ganhos a título de khums, um imposto islâmico. O museu em Raca, capital do EI na Síria, foi saqueado e os objetos removidos em caixas repletas.

Dinheiro é o rei. A prática do mercado negro é tão extensa, diz uma autoridade iraquiana, que hoje o tráfico de antiguidades é a principal fonte de receita do Estado Islâmico. E à medida que os aviões ocidentais bombardeiam as instalações de petróleo capturadas pelo EI, a necessidade dos dólares provenientes do tráfico de antiguidades só aumenta.

Mas o EI não é o único. Numa região onde a autoridade do Estado em muitos lugares desmoronou, grupos armados, rebeldes do Exército Sírio Livre e gangues criminosas mantêm depósitos entupidos de peças antigas, diz René Teijgeler, que dirige a ONG holandesa Heritage for Peace que opera do lado turco da fronteira com a Síria. A pobreza também aumenta a oferta. “Muitos são saques em busca da subsistência”, diz James Ratcliffe, da Art Loss Register, entidade de monitoramento de obras de arte com sede em Londres. 

Gangues vêm trabalhando em torno da pirâmide de Zoser, a mais antiga do Egito. Uma coleção de 7.700 moedas de ouro antigas, joias e estatuetas desapareceu do principal banco comercial da Líbia em Benghazi.

Os marchands de arte em Londres insistem que, com poucas exceções, os objetos roubados acabam sendo negociados em casas de leilão ocidentais, levando alguns a questionar a extensão dos prejuízos. Christopher Marinello, do Art Recovery Group, de Londres, disse que lhe foi exibido um vaso romano da Síria que avaliou em dezenas de milhares de libras.

Outros comerciantes afirmam ter encontrado antiguidades da Mesopotâmia em oferta no site eBay. Deborah Lehr, da associação americana Antiquities Coalition, estima que antiguidades egípcias avaliadas em US$ 3 bilhões foram perdidas desde a queda do presidente Hosni Mubarak, em 2011. A International Trade Commission, dos EUA, informou que a importação de antiguidades declaradas do Iraque e da Síria aumentou 672% e 133% respectivamente.

Um coro de especialistas locais e estrangeiros pede uma ação militar para salvar esses sítios preciosos. A diretora da Unesco, Irina Bokova, qualifica a destruição do patrimônio cultural de um país como crime de guerra e insiste na criação de “zonas culturais protegidas”. Com um olho na Líbia, o ministro do Exterior da Itália, Paolo Gentiloni, quer criar uma força de “capacetes azuis da cultura” que chegaria de paraquedas no caso de ameaça de conflito ou desastre natural. Outros pedem aos Estados Unidos que ampliem sua “responsabilidade de proteger” vítimas humanas de genocídio, para objetos inanimados ameaçados de “genocídio cultural”. A Convenção de Haia de 1954 contempla a cobertura legal deste tipo. Exige que os países signatários “se necessário, impeçam qualquer forma de roubo, saque ou apropriação indébita, ou qualquer outro ato de vandalismo envolvendo a propriedade cultural”.

Mas os comandantes militares mostram-se cautelosos. Em março, o chefe do Estado-Maior Conjunto do Exército dos Estados Unidos, Martin Dempsey, declarou que examinaria a questão de proteger os sítios históricos, mas descartou a possibilidade de realizar ataques aéreos imediatos. A defesa desses locais com o uso da força militar pode transformá-los em campos de batalha, dizem os assessores militares. Além disso, uma ação militar para proteger antiguidades poderá aumentar ainda mais a hostilidade da região contra potências ocidentais, uma vez que elas ficaram em compasso de espera enquanto tiranos com armas químicas e convencionais matavam centenas de milhares de seres humanos. “Não vamos nos preocupar com as ruínas no momento”, escreveu no Twitter um arqueólogo americano quando surgiram as notícias sobre a captura de Palmyra. “Mais de 90 pessoas, entre elas 11 crianças, foram executadas pelo EI em Palmyra em uma semana”.

Sem meios para restringir a oferta, as agências internacionais tentam refrear a demanda. Em fevereiro o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a Resolução 2199 proibindo a venda de antiguidades da Síria e também do Iraque. Os agentes da lei registraram algum sucesso na recuperação de objetos, devolvendo grande parte do que foi roubado do museu de Malawi em Minya, cidade localizada no Alto Egito, em 2013.

Mas pode ser feito ainda mais para aumentar o controle. A fronteira da Turquia continua totalmente aberta. E há 60 anos a Grã-Bretanha, centro do mercado global de arte, recusa-se a ratificar a Convenção de Haia.

Apenas três policiais foram designados para monitorar as vendas ilegais de antiguidades, diz Robert Jenrick, ex-diretor da casa de leilão Christie’s e hoje membro do Parlamento. Ninguém sabe como estabelecer as penas para crimes contra o patrimônio cultural.

Esperando despertar a consciência das pessoas a Unesco realizou várias conferências e ajudou a publicar listas de objetos considerados bens culturais. O regime Assad e o governo do Iraque aderiram à tendência, tentando conseguir apoio para sua luta entre civilização e os bárbaros e ao mesmo tempo instalando baterias de mísseis no topo de colinas com vista privilegiada abrigando santuários antigos. 

O Iraque debateu o assunto no Parlamento e colocou suas antiguidades em exposição pela primeira vez desde a derrubada de Saddam Hussein. “Nossa resposta à destruição de museus pelo EI é abrir os museus”, diz o ministro do Turismo do Iraque. Mas toda a publicidade poderá incentivar o EI a buscar novas manchetes nos jornais.

Na falta de alternativas, muitos optam por uma posição defensiva, ou seja, proteger o que se conseguir de volta. Os museus ocidentais há muito tempo pressionados para repatriarem objetos roubados em outras eras procuram se promover como “santuários do patrimônio cultural iraquiano”, diz o diretor do Louvre Jean-Luc Martinez. Alguns formadores de opinião regionais demandam, ironicamente, ao Ocidente para saquear mais. “Deixem que eles roubem nossos artefatos. Nós não os merecemos”, escreveu Abdulrahman al-Rashed, famoso jornalista árabe. 

Mas as medidas mais corajosas são as adotadas pelos próprios moradores locais. Em Mossul, a população se apressou em defender um famoso minarete medieval quando o EI tentou destruí-lo. Teijgeler, da organização Heritage for Peace, recontratou 150 funcionários conhecedores de antiguidades que trabalharam nos dois terços da Síria hoje em mãos rebeldes. Alguns tiraram fotos em três dimensões como modelos a serem usados quando a região começar sua reconstrução e enterraram o que restou. Outros resgataram antiguidades, incluindo os mosaicos arrancados da parede de uma igreja em Idlib, a noroeste da Síria. 

Teijgeler está programando um curso de treinamento para jihadistas sírios sobre os méritos de preservar o passado. Talvez as mentes mudem. O EI publicou recentemente um folheto de viagem comemorando o fato de sítios antigos em Mossul ali permanecerem.

THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM WWW.THEECONOMIST.COM

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