Sanções a bens de luxo para minar apoio da elite

Carrões, bebidas e peças de grifes estão sob veto

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h02

Vai faltar caviar na mesa de Bashar Assad, além de taças de cristal. Essa é pelo menos a meta da União Europeia que hoje publica uma lista de bens de luxo que serão impedidos de ser exportados para a Síria. A medida faz parte da tentativa dos países europeus de pressionar o regime, ao minar justamente o estilo de vida da elite econômica síria, tradicional aliada de Assad.

Nada de sapatos de marca, carros de luxo, pérolas ou cigarros exclusivos. A lista vai conter, ainda, produtos com uso duplo, que poderiam ser usados para a repressão. Enquanto a oposição alerta que o conflito na Síria já fez mais de 14 mil mortos, observadores da ONU admitem que têm cada vez mais dificuldades para se movimentar no país.

Há dois meses, e-mails supostamente da família Assad publicados no Grã-Bretanha revelaram que, mesmo diante da crise, o clã continuou a manter seu estilo de vida de opulência e luxo. Asma, a primeira-dama, teria feito compras pela web em lojas de luxo de Londres e Paris.

Para a chefe da diplomacia da UE, Catherine Ashton, a nova rodada de sanções foi elaborada para evitar aprofundar os problemas da população. Relatórios internos da ONU obtidos pelo Estado apontam que o embargo contra o país tem afetado acima de tudo a população mais pobre, obrigada a pagar mais por alimentos e gasolina. "As sanções têm como alvo os responsáveis pela repressão na Síria", disse.

Analistas e mesmo diplomatas na ONU alertam que o impacto das novas medidas será muito pequeno. Não apenas a falta de caviar não fará diferença, como o fornecimento de grande parte desses produtos de luxo poderia simplesmente vir da Rússia ou da China - dois países que se opõem às sanções. Isso sem contar que o maior produtor de caviar do mundo é o Irã, aliado incondicional de Assad.

A lista da 16.ª rodada de sanções ainda inclui o embargo a trufas, produtos de couro de mais de 200, relógios de mais de 500 e garrafas de vinho de mais de 50. Carros acima de 25 mil também serão proibidos, além de aviões e barcos. Mesmo sabendo que Assad dificilmente suspenderá a repressão por falta de caviar, fontes europeias destacam que a meta é enfraquecer o apoio da classe alta síria ao regime. A elite econômica do país há anos trocou a liberdade política por lucrativos contratos e posições privilegiadas na economia síria.

Hoje, 128 pessoas ligadas ao regime são alvos de sanções, além de 43 empresas. Há uma semana, o governo suíço ampliou o volume de ativos congelados que teriam ligações com Assad. Hoje, a família já tem US$ 70 milhões bloqueados apenas nas contas suíças. Investimentos europeus na Síria também estão proibidos. A lista de itens proibidos inclui produtos químicos e biológicos que poderiam ser usados na campanha de repressão aos manifestantes.

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