Sanções à Síria minam negócios na Turquia

Empresários turcos de regiões com vínculo estreito com vizinho começam a reclamar

New York Times

13 de dezembro de 2011 | 22h02

GAZIANTEP, TURQUIA - No velho bazar da cidade turca de Gaziantep, desde há muito fortemente ligada à Síria, a balbúrdia em árabe dos comerciantes deu lugar a um silêncio pouco comum.

 

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Não há sinal dos 40 mil sírios que a cada mês percorriam o reluzente shopping Sanko Park da cidade para comprar lenços de cabeça de grife ou sapatos Gucci com desconto. Não há mais necessidade de anúncios públicos em turco e em árabe. Muitos vinham da maior cidade da Síria, Aleppo, a meros 96 quilômetros de distância. “Sentimos falta dos sírios”, disse Ercan Nacaroglu, cuidando de sua joalheria vazia. “Tomara que a crise termine, pois ela está matando a economia local.”

 

Há apenas um ano, Turquia e Síria eram aliados íntimos. Ancara tentava ampliar sua influência econômica e transformar-se numa potência regional. A fronteira de 800 quilômetros entre os dois países é a maior da Turquia; durante o Império Otomano, Gaziantep fazia parte da Província de Aleppo.

 

Do outro lado, a Síria continua impregnada de influência turca, da arquitetura otomana à persistente popularidade das novelas do país vizinho. O comércio bilateral havia mais que triplicado desde 2006, para US$ 2,5 bilhões em 2010.

 

Durante meses, as autoridades turcas tentaram persuadir o presidente Bashar Assad a parar com a repressão violenta contra uma sublevação civil que começou em março. Mas, ao final, enfaticamente, manifestaram sua oposição ao governo sírio.

 

Com as sanções impostas pela Liga Árabe, União Europeia e EUA, as medidas duras da própria Turquia – incluindo o congelamento de ativos do governo sírio – estão lentamente começando a estrangular o regime de Assad. Mas os negociantes de Gaziantep queixam-se de que a ruptura prejudica ambos os países.

 

Na segunda-feira, mais de 150 motoristas de caminhão turcos protestaram após terem sido obrigados a deixar seus veículos na Síria e caminhar até a fronteira turca - Damasco havia fechado seu cruzamento perto de Urfa, no leste da Turquia.

 

Os motoristas disseram que saqueadores sírios tinham roubado seus pneus e baterias. Empresas turcas, que dependiam da Síria como uma rota de trânsito para o Oriente Médio, começaram a contornar o território do país vizinho, enviando seus produtos via Iraque e pelo Mar Mediterrâneo.

 

Na semana passada, a Síria suspendeu unilateralmente seu acordo de livre comércio com a Turquia, retaliando as sanções turcas com a introdução de impostos de até 30% sobre artigos turcos que entram na Síria. A Turquia fez o mesmo.

 

No centro industrial de Gaziantep, de 1,7 milhão de habitantes, todos - dos vendedores de azeitonas aos donos de grandes conglomerados têxteis – reclamam que as mudanças geopolíticas estão sendo ruins para os negócios.

 

Os vendedores turcos são mais duramente atingidos que os compradores: as importações da Síria representaram apenas 0,3% das importações totais da Turquia, no ano passado, enquanto 10,6% das importações da Síria vieram da Turquia.

 

Cisões

 

A decisão turca de tornar-se a voz da indignação regional contra Assad também dividiu a cidade onde as culturas turca e árabe têm se misturado há séculos.

 

Emre Hadimogullari, um estudante de engenharia elétrica de 22 anos, está tão irado com a política do governo turco em relação à Síria que deixou crescer a barba em protesto. Ele é um alauita cujos avôs viram-se transformados em cidadãos turcos quando sua cidade natal, Samadang, que fazia parte da Síria, foi cedida à Turquia em 1923.

 

Hadimogullari afirmou ter um parentesco com Assad, também alauita, e considera exagerados os relatos sobre atrocidades na Síria. A Turquia, insistiu, devia parar de fazer o papel de gendarme regional.

 

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

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