Sanções ajudam o Irã a obter a bomba atômica?

Exclusão engendrou nos cientistas iranianos o nacionalismo

Ray Takeyh, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Durante anos acreditou-se que sanções econômicas e diplomacia seriam capazes de produzir um parceiro de negociações viável no Irã. Mas a truculência iraniana acabou finalmente desmentindo esta ideia antes popular, enquanto certo nível de confusão e consternação envolveu a comunidade internacional. A esperança raramente enunciada é que a negação do acesso às tecnologias fundamentais e a sabotagem sejam capazes de retardar o programa nuclear da República Islâmica até que, de alguma maneira, venha à tona uma estratégia alternativa ou um acordo. O raciocínio tem sido o de que o tempo está ao nosso lado e a fraca base científica iraniana possa ser ainda mais prejudicada por meio de pressões do tipo. Contrariando tais suposições, a infraestrutura científica do Irã cresceu em sofisticação e capacidade nas últimas duas décadas.

O Irã apresenta uma trajetória anômala na proliferação nuclear; quase todas as demais potências médias que obtiveram a bomba receberam auxílio substancial por parte de um padrinho estrangeiro. A China conseguiu da União Soviética não apenas orientação técnica como também os meios para a construção de um reator nuclear, instruções técnicas para a fabricação de armas e um suprimento de mísseis balísticos. A China, por sua vez, forneceu ao Paquistão urânio enriquecido em quantidade suficiente para duas bombas, ajudou na construção de sua usina de enriquecimento e reatores movidos a plutônio, e planos técnicos para a fabricação de bombas.

Israel recebeu da França um reator nuclear, uma usina subterrânea de reprocessamento de plutônio e planos técnicos para a fabricação de armas. A Índia omite convenientemente o fato de ter recebido um reator nuclear do Canadá e 20 toneladas de água pesada dos EUA.

Teerã, apesar de ter recebido assistência russa na fase final da construção de um reator de água leve cujo uso não pode ser desviado para a fabricação de armas, nunca desfrutou do tipo de apadrinhamento externo recebido por outros países para a proliferação nuclear.

Habilidade. Além disso, nenhum outro Estado se viu diante de tentativas tão sistemáticas de prejudicar seu programa nuclear por meio da negação do acesso à tecnologia e da infiltração de vírus de computador. (Na verdade, se Paquistão e Israel tivessem enfrentado os obstáculos que o Irã vê diante de si, o caminho trilhado por eles até a obtenção da bomba teria sido muito mais longo.) O fato de o Irã ter conseguido superar sucessivos limiares na sua capacidade técnica, conseguindo manter uma elaborada e cada vez maior rede de enriquecimento, estando agora prestes a revelar uma nova geração de centrífugas, é indício de sua habilidade científica.

O que tornou isto possível? Os anos 80 foram um período calamitoso para a ciência no Irã, pois o ataque revolucionário às universidades e a prolongada guerra contra o Iraque privaram o setor da educação de recursos e do apoio do Estado. Isso mudou nos anos 90, apesar das sanções e do controle das exportações impostos ao Irã após a Revolução de 1979, conforme a elite política - conservadores e reformistas - buscava dar nova vida à pesquisa científica.

Num país no qual a política muitas vezes se revela um esporte sangrento, reformistas e reacionários encontraram pontos em comum no seu compromisso com o desenvolvimento científico. Os resultados foram impressionantes: o número de estudos científicos produzidos por estudiosos iranianos publicados em revistas do ramo reconhecidas internacionalmente tem aumentado dramaticamente, enquanto muitas universidades contam com recursos e experiência suficiente para oferecer seus próprios programas de doutorado.

Em vez de sofrer com a escassez e a inibição provocadas por um eventual limite nos recursos decorrente das sanções, o Estado se mostrou um generoso patrocinador da ciência. Os cientistas iranianos emergiram como nacionalistas convictos, determinados a transcender o sectarismo político e proporcionar a seu país o espectro máximo da descoberta tecnológica, incluindo avanços na ciência nuclear.

Ironicamente, o status de pária do Irã engendrou um espírito de camaradagem na sua comunidade científica. Os pesquisadores ressentem-se quando colegas estrangeiros lhes fecham as portas, ficam irritados por serem excluídos das iniciativas de centros ocidentais de aprendizado e estão furiosos com o assassinato seletivo de colegas.

Pacto. No Irã de hoje, governantes e cientistas estabeleceram um pacto nacional segundo o qual o Estado fornece os recursos e os cientistas entram com a experiência. Um corpo dedicado de cientistas nacionalistas tem o compromisso de proporcionar a seu país a capacidade de atingir o ápice do avanço tecnológico e, neste processo, possibilitar aos mulás os meios para a construção da bomba.

As estimativas mais exatas variam, mas nos próximos anos o Irã estará em posição de detonar um artefato nuclear. Uma teocracia agressiva armada com a bomba é algo que vai lançar uma sombra ameaçadora sobre a transição política da região, mas as consequências não se limitarão ao Oriente Médio. Uma bomba iraniana deve desencadear a mais profunda discórdia entre os partidos políticos americanos desde 1949, quando foram trocadas acusações pela responsabilidade pela derrota na China. No fim, nem a turbulenta ordem do Oriente Médio nem os planos partidários de Washington podem se dar ao luxo de conviver com uma República Islâmica armada com a bomba nuclear. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É BOLSISTA SÊNIOR DO CONSELHO DAS RELAÇÕES EXTERIORES

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