Sandy, o adivinho

Talvez a mãe natureza não esteja pondo seu polegar no prato da balança, mas dando uma banana a ambos os candidatos

FRANK BRUNI - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h04

Análise

Para você que viu partes inteiras de sua casa navegando para longe, ficou preso num abrigo ou não conseguiu fazer contato com um ente querido cuja segurança era incerta, talvez seja, na melhor hipótese, desconcertante - e na pior, vexatório - ouvir o furacão Sandy ser mencionado como uma "surpresa de outubro", no mesmo nível que o surgimento de uma pretensa ex-amante desvairada ou um escândalo de corrupção, conturbando mais do que tudo a corrida presidencial.

Mas não há solipsismo como o solipsismo político e essa eleição confundiu pessoas com desdobramentos dos mais secundários e pesquisas aleatórias sendo escrutinados minuciosamente em busca de seu significado premonitório. Por que o tempo seria poupado dessa hiperventilação? Esta semana será lembrada como aquela em que meteorologia e especulação política se tornaram estranhas aliadas e uma boa dose de perspectiva foi levada pelo vento.

Eu li que o Sandy reduzirá o impacto das últimas peças de propaganda, pois as pessoas cuja eletricidade foi cortada não podem assistir à TV. Li também que o Sandy intensificará o impacto das últimas peças de propaganda porque as pessoas cuja eletricidade não foi cortada estão monitorando intensamente as estações locais onde essa propaganda foi concentrada.

Opinou-se que o Sandy poderia prejudicar o presidente Barack Obama, impedindo a votação antecipada e reduzindo o comparecimento. Opinou-se que o Sandy ajudaria Obama ao lhe oferecer a oportunidade de parecer presidencial enquanto mobiliza recursos federais e comanda o esforço de ajuda de emergência.

A árvore açoitada pelo vento do lado de fora da minha janela está se curvando para a esquerda, um claro presságio a favor do presidente. Mas se eu estivesse olhando para ela do prédio do outro lado do pátio, ela estaria se inclinando para a direita, um óbvio aceno para Mitt Romney. Alguém em algum lugar certamente produziu um gráfico que associa categorias de tempestades com suas consequências eleitorais.

Nevascas: pró-Romney. Neve evoca inverno. Romney salvou os Jogos Olímpicos. E um de seus apelidos - Mittens (luvas para frio) - sugere neve remexida e fofura.

Tsunamis: também pró-Romney. Eles atingem as costas, onde se amontoam os tipos cosmopolitas e, com isso, desviam a atenção dos liberais da disputa em curso, dando maior poder aos rapazes que vivem no viaduto.

Tornados: pró-Obama. Eles distraem os caras no viaduto, e também são conhecido como "twisters" (em inglês, tanto tornado, redemoinho, como alguém que torce as coisas) o que lembra eleitores por toda parte da miscelânea de posições disparatadas ao longo de sua carreira política ou, quanto a isso, nos últimos cinco minutos.

E furacões? No site Mother Jones, fiquei sabendo que "todas as outras coisas sendo iguais, o partido que está no poder se sai pior quando está molhado demais ou seco demais", ao contrário do que ocorre quando tudo está normal. Foi esta a avaliação de Larry Bartels, um professor de ciência política na Universidade Vanderbilt que aparentemente fez o estudo disso.

Mas como o partido no poder faz quando a Lua está na sétima casa e Júpiter se alinha com Marte? Quem, eu imploro, está fazendo um estudo disso? O presidente Obama suspendeu sua campanha para comandar de Washington as medidas contra a situação catastrófica. Assim, um comício marcado para Orlando, Flórida, que ele supostamente faria com Bill Clinton, teve de ser comandado pelo ex-presidente apenas. Clinton, nem seria preciso dizer, ficou devastado.

Visitas. Joe Biden fez um desvio de New Hampshire para Ohio, que foi também para onde Clinton se dirigiu depois da Flórida. Romney também foi para lá. Será que os moradores locais não terão um minuto de sossego? As campanhas de Obama e de Romney acham que baixar em um Estado indefinido inúmeras vezes vai lhes render simpatia, mas isso é questionável. Com os engarrafamentos de trânsito, atrasos de voos e hordas de colunistas sarcásticos que os candidatos trazem consigo, eu não gostaria de uma visita pessoal. De uma cesta de presentes, talvez.

À medida que o Sandy engrossava, o mesmo ocorria com o pânico político. Será que a tempestade derrubaria linhas telefônicas suficientes para impedir as pesquisas de acompanhamento diário? Uma coluna em The Huffington Post articulou esse medo tétrico, que eu caracterizo como uma deliciosa suspensão.

Será que o crescimento das marés acabaria com o crescimento de Mitt, seu ímpeto varrido pelo domínio da tempestade nos noticiários? E será que o Departamento do Trabalho se agarraria ao Sandy e ao fechamento de escritórios federais como desculpa para não divulgar novos números sobre o desemprego na sexta-feira, dizendo que o trabalho sobre eles foi retardado?

Os republicanos tiveram ataques de raiva até autoridades do departamento anunciarem que provavelmente não haveria atraso.

Verificações da realidade eram imperativas. O Estado cujo cancelamento da votação antecipada foi citado com mais frequência foi Maryland. Obama não precisa da votação antecipada para ganhar Maryland.

E a mudança climática foi trazida à baila. "É a mãe natureza enviando mais uma mensagem aos eleitores americanos: não me ignorem mais", escreveu Heather Taylor-Miesle, diretor do Fundo de Ação do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais numa postagem de blog enviada por e-mail a muitos jornalistas.

Evidentemente, Obama e Romney ignoraram a mudança climática em seus três debates. Portanto, talvez a mãe natureza não esteja pondo seu polegar num prato da balança, mas dando uma banana a ambos os candidatos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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