Gleb Garanich / Reuters
Gleb Garanich / Reuters

Sanguinário, doente mental e burguês: Rússia desmistifica Lenin 30 anos após fim da URSS

Série ‘Lenin’ contou com 10 oficiais liderados pelo ex-chefe de arquivos da FSB (ex-KGB) que mergulharam durante quatro anos em documentos dos serviços secretos

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2019 | 09h17

MOSCOU - Trinta anos depois do fim da União Soviética, Lenin aparece desmistificado em um documentário russo, o qual o qualifica de sanguinário, doente mental e pequeno burguês.

A série Lenin, que deve estrear em breve na rede de TV nacional russa Pervy Kanal, quer “acabar com o mito de Vladimir Ulianov”, o verdadeiro nome do fundador da URSS, segundo o roteirista da produção, Ior Lipin.

Para produzir os 18 episódios da série, 10 oficiais liderados pelo ex-chefe de arquivos da FSB (ex-KGB), o general Vasili Khristoforov, mergulharam durante quatro anos em documentos dos serviços secretos.

“A lenda do amável Lenin ante o terrível Stalin é falsa, porque foi Lenin quem lançou o terror vermelho”, disse Lipin dias antes do 102.º aniversário da revolução bolchevique.

Doente mental

A série documental mostra, por exemplo, uma carta de agosto de 1918 na qual Lenin pede a morte de 2 milhões de camponeses considerados ricos, que foram violentamente reprimidos. Um mês depois, ele viria a criar os campos de concentração para “isolar” as classes inimigas.

Outros documentos revelam, de acordo com os autores da série, que Lenin sofria transtornos mentais, e que sua mãe havia escrito à polícia em abril de 1898 se referindo ao “inquietante estado psíquico” do jovem revolucionário e a uma “doença mental que afeta a família”.

Este tom duro da produção contrasta com o culto à personalidade de Lenin imposto na URSS durante 70 anos, com canções, livros, filmes ou slogans. 

Imagem positiva

A propaganda comunista deu a ele a imagem de um ascético altruísta e humano, diferente do tirano Stalin. Inclusive hoje Lenin mantém uma certa popularidade entre os russos. 

Cerca de 40% da população enxerga o ex-líder comunista de uma forma positiva, segundo uma pesquisa feita em 2017. Além disso, 80% se opõe à derrubada de suas estátuas, ainda presentes em todo o país. E seu mausoléu, com o corpo embalsamado, continua na Praça Vermelha.

As novas autoridades russas normalmente ignoram Lenin e preferem destacar o papel de Stalin na vitória frente aos nazistas.

De certa forma, “Lenin tem sido esquecido e passado sob a sombra de Stalin”, afirmou o diretor de cinema Vladimir Khotinenko, cujo filme Lenin, a Iminência foi lançado no fim de outubro na Rússia.

A obra, longe de descrever a vida de um proletário, mostra Vladimir Ilich Ulianov com um chapéu, uma gravata borboleta e uma bengala, ou desfrutando de Wagner na ópera. 

A superprodução relata o polêmico episódio do retorno à Rússia, em 1917, de Lenin, então chefe de um pequeno partido revolucionário e exilado na Suíça.

Dinheiro alemão

O ator que interpreta Lenin, Evguéni Mironov, destaca a suspeita que recai sobre o dirigente revolucionário de ter financiado seu combate com dinheiro do inimigo alemão.

“Lenin nunca quis a Rússia ou os russos, esses camponeses preguiçosos. Para ele, a Rússia não era mais do que o início de seu projeto de revolução mundial”, disse o ator ao jornal Izvestia.

O porta-voz do Partido Comunista Russo (KPRF), Alexandre Yushenko, lamentou que se tente “desacreditar Lenin” quando as desigualdades econômicas e sociais impulsionam as pessoas a tomar as ruas “na Rússia e em todo o mundo”.

“Ele demonstra que as ideias de Lenin seguem vigentes nos povos que se erguem contra os detentores do capital”, afirmou ele. / AFP

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