Santa Cruz critica governo central por escassez de diesel

Como ontem era domingo, não havia diesel. Desde que a YPFB, a petrolífera estatal boliviana, tomou o controle da importação e distribuição desse produto, que antes era da Petrobrás, o suprimento é irregular. Atualmente, só há diesel em três dias da semana em muitos postos de Santa Cruz: terça, quinta e sábado. Nessas ocasiões, donos de caminhões, tratores, caminhonetes e vans chegam a ficar mais de cinco horas na fila para conseguir uma quantidade limitada. Analistas vêem na falta de eficiência da YPFB a causa do problema. Após a nacionalização do setor de hidrocarbonetos, no ano passado, a estatal passou a ser responsável por um conjunto de atividades que ultrapassam sua baixa capacidade técnica e de investimentos. A escassez de diesel, porém, também se transformou num agravante na instável relação do governo federal com os departamentos do oeste e sul do país, que brigam por mais autonomia em relação a La Paz. Para a elite de Santa Cruz, o desabastecimento, acentuado nos últimos dois meses, é antes de tudo uma retaliação política. Por falta de combustível, a Ferroviária Oriental (FO) suspendeu no fim de semana as saídas de dois trens que cobrem a rota Santa Cruz-Porto Quijarro, ligando a Bolívia ao Brasil. Já os produtores do setor agrícola reclamam que, sem abastecer o maquinário, as safras do verão estariam comprometidas. O sistema de coleta de lixo não consegue mais atender todos os bairros adequadamente e o transporte público de Santa Cruz fez uma greve na semana passada porque estava sendo obrigado a trabalhar com metade das 7 mil unidades. Sua reivindicação era subir o preço da passagem de 1,5 para 2 bolivianos (pouco mais de R$ 0,50). O desabastecimento de diesel também já está provocando um aumento dos preços dos alimentos e dos produtos básicos. Os materiais de construção, por exemplo, subiram 100% desde o início do ano. O problema contribui para impulsionar a inflação, que deve ultrapassar os 10% em 2007. Para o governo, a elite de Santa Cruz é a responsável pela escassez. O argumento, endossado pela YPFB, é de que o produto repassado ao Estado é suficiente. O desabastecimento seria, portanto, um "ato de sabotagem".

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