EFE/CESÁR CARRIÓN/Presidencia de Colombia
EFE/CESÁR CARRIÓN/Presidencia de Colombia

Santos doará dinheiro do Nobel da Paz para reparar vítimas na Colômbia

Presidente anunciou no domingo que 'obras, fundações ou programas que tenham a ver com as vítimas e com a reconciliação' receberão os oito milhões de coroas suecas (quase R$ 3 milhões) que ele ganhou pelo prêmio

O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2016 | 10h41

BOGOTÁ - Cercado de vítimas do conflito armado na Colômbia e após uma cerimônia religiosa carregada de pedidos de paz, o presidente Juan Manuel Santos anunciou no domingo, 9, que doará o dinheiro do prêmio Nobel da Paz para a reparação dos afetados no conflito interno.

Da cidade de Bojayá (noroeste), onde em 2002 morreram 79 pessoas refugiadas em uma igreja durante enfrentamentos entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e grupos paramilitares, Santos disse que doará o prêmio em dinheiro que receberá pelo Nobel da Paz, com o qual foi agraciado na semana passada por seus esforços para pacificar o país submetido a mais de meio século de conflito armado.

"Ontem à noite me reuni com a minha família e tomamos a decisão de doar estes oito milhões de coroas suecas (quase R$ 3 milhões) para que as vítimas possam ser reparadas", disse o presidente colombiano, que foi interrompido por aplausos dos presentes na liturgia, entre eles parentes das vítimas do massacre de 2002.

Acompanhado por sua mulher, seus filhos e vários membros de seu governo, todos vestidos de branco, assim como a maioria dos moradores, Santos assegurou que destinará a quantia do prêmio "a obras, fundações ou programas que tenham a ver com as vítimas e com a reconciliação".

"Vamos perseverar, vamos persistir, persistir, persistir e persistir até que consigamos implementar o acordo assinado com as Farc. Se tiver que fazer ajustes ao que já acordamos, então faremos ajustes", acrescentou. "Tenham certeza de que vamos implementar estes acordos", disse Santos no culto, marcado por cânticos religiosos populares pedindo paz e reconciliação.

O governo Santos e as Farc assinaram em 26 de setembro, em Cartagena, um acordo de paz após quase quatro anos de negociações em Cuba. O pacto, no entanto, foi rechaçado pelos colombianos por 50,2% dos votos em um plebiscito realizado no começo de outubro.

As partes reiteraram desde então sua vontade de paz e sua disposição a revisar o acordado. Anunciaram também que manterão o cessar-fogo bilateral decretado em 29 de agosto no âmbito do pacto de paz.

"Não esmoreça". Na cerimônia religiosa deste domingo, celebrada por vários sacerdotes na empobrecida região do Chocó, onde os rios são as principais vias de transporte, os pedidos de paz e favoráveis à implementação do acordo assinado como as Farc se repetiram sem cessar.

"A paz é o caminho, não há mais opção, não esmoreça porque Deus está com você", disse a Santos, durante a liturgia, o sacerdote e sobrevivente do massacre Antún Ramos, lembrando-lhe que neste local tão castigado pela guerra, 95% dos votos no plebiscito foram pelo "sim" ao acordo.

"Os tecnicismos a que nos querem submeter não são compreensíveis nestas zonas de guerra", acrescentou o sacerdote, em referência implícita às revisões do pacto de paz pedido pelos opositores como o ex-presidente e atual senador Álvaro Uribe.

Em dezembro do ano passado, em meio a negociações de paz com o governo, líderes das Farc viajaram a Bojayá para pedir perdão a seus moradores pela bomba lançada por membros desta guerrilha em 2002.

Líderes guerrilheiros voltaram há poucas semanas a Bojayá para entregar um Cristo negro à igreja da comunidade afro-colombiana, como símbolo de reconciliação.

No domingo, moradores da cidade entregaram a Santos a imagem de um Cristo mutilado, ao pedir-lhe que siga adiante com seus esforços por alcançar a paz. Um presente que o presidente equiparou em importância ao prêmio Nobel.

O conflito armado colombiano, no qual se enfrentaram guerrilheiros de esquerda, paramilitares de direita e agentes do Estado deixou em mais de meio século pelo menos 260.000 mortos, 45 mil desaparecidos e 6,9 milhões de desalojados. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.