Santos mudará foco da defesa para economia

A proposta do novo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, de rumos novos para a política externa colombiana tem por base não convicções ideológicas, mas considerações pragmáticas. Em 2008, as exportações colombianas para a Venezuela chegaram a US$ 7 bilhões. Neste ano, se alcançarem US$2 bilhões será muito. Em última instância, pode-se dizer que Bogotá está pagando US$ 5 bilhões anuais pelas disputas com o vizinho por causa das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Santos nem sempre defendeu o diálogo com Caracas. No passado foi um dos maiores críticos do venezuelano Hugo Chávez e em 2008, como ministro da Defesa, ordenou o ataque ao acampamento das Farc no Equador. Agora, está sendo pressionado pelos setores industriais do país ? e tem novos desafios pela frente.

A Colômbia tem os mais altos níveis de desemprego da América Latina e uma das maiores taxas de informalidade da região. A queda das exportações para a Venezuela é um dos fatores que deve limitar o crescimento do PIB em 2010 a apenas 2,5%, enquanto a média latino-americana será de 4%.

"Chávez fez acusações pessoais contra Uribe, mas tomou o cuidado de não mexer com Santos ? um sinal positivo para a resolução da crise", diz Gabriel Murillo, cientista político da Universidade dos Andes.

Assessores do novo presidente explicam que ele quer marcar um estilo diferente de Uribe. "Em vez de centralizar e personalizar o poder, propõe que os ministros tenham mais protagonismo e haja espaço para diversidade política", explicou um deles.

Se para Uribe a disputa com as Farc é prioridade política e pessoal ? seu pai foi assassinado pela guerrilha ?, a ideia de Santos, explicam assessores, é "desideologizar" as relações exteriores e mudar o foco da defesa para a economia. Tanto que América Latina e Europa foram escolhidos como seus primeiros destinos internacionais, não os EUA, que tinham a preferência de Uribe.

Certamente, Santos só pode deixar de se preocupar tanto com a segurança porque seu antecessor acuou as Farc, desarmou 20 mil paramilitares e fortaleceu o Estado colombiano. Ninguém subestima seu legado. Mas há um reconhecimento de que ele precisa de retificações.

Não surpreende que custe a Uribe entregar o poder até para um aliado. O atual presidente conseguiu o aval para concorrer ao segundo mandato em 2006 com a aprovação de uma emenda no Congresso, depois de perder um referendo popular sobre o tema. A possibilidade de um terceiro mandato só foi barrada em fevereiro, pela Justiça.

"Uribe deveria prestar mais um grande serviço a seu país e deixar Santos governar ", defendeu em um editorial, a revista britânica The Economist, sugerindo que o novo presidente desse a Uribe um cargo onde ele não pudesse se intrometer demais no governo: "Embaixador em Pequim, por exemplo." / COLABOROU DENISE CHRISPIM MARIN

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