Santos, o novo astro da diplomacia

No ano passado, quando Juan Manuel Santos assumiu o poder na Colômbia, o mais conflagrado país do hemisfério não sabia o que esperar. Parte dos compatriotas receava que Santos seria um fantoche do antecessor, o polêmico Álvaro Uribe que travou guerra à guerrilha, abraçou os EUA, e brigou com meio mundo a caminho. Outra parte temia que não o seria.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Santos surpreendeu a todos. Polido, discreto e um tanto burocrático, parece o anti-Uribe. Mas não se trata de um recuo, muito menos um rompimento. Uribe saiu do Palácio de Nariño como um dos líderes mais populares da história do país e não teve dificuldades em fazer seu sucessor, com quem mantém laços estreitos.

Mas há um ajuste fino em curso. Santos é herdeiro, mas não fotocópia de Uribe. Ainda é cedo para dizer se dará certo sua nova ofensiva charmosa, mas os indícios são promissores e já alçam a modesta Colômbia a um lugar de destaque nas Américas.

Com apenas 45 milhões de habitantes e a quinta economia do continente, a Colômbia nunca foi mandachuva no hemisfério. Viveu nas últimas décadas tragada por crimes e conflitos internos que ameaçavam empurrar o país ao rol das nações falidas. Enquanto a Venezuela evangelizava a aliança bolivariana e o Brasil ensaiava sua diplomacia global, a Colômbia tentava não descarrilar.

Santos quer mais. Ex-ministro de Uribe, primeiro da Fazenda e depois, da Defesa, ele não só honrou a bonança uribista - ordem, estabilidade e prosperidade -, como agregou-lhe valor com políticas de recuperação econômica e fiscal, inclusão social e reparação. O novo líder ainda está imprimindo seu próprio estilo ao governo, emplacando ganhos onde menos se esperava, na política externa.

Um de seus primeiros gestos foi o de jogar uma pá de cal no polvoroso conflito com a Venezuela. Uribe vivia às turras com o homem forte bolivariano, que achou no vizinho o perfeito inimigo útil, dilatando-o para insuflar os brios nacionalistas. Santos viu na pólvora uma oportunidade e, no terceiro dia de seu mandato, chamou Hugo Chávez à mesa. Desarmado, o comandante rendeu-se ao afago e os dois trocam vivas e loas desde então.

Há quem considere Santos ingênuo ou até irresponsável. Chávez é o mestre da dissimulação, que costuma abraçar o vizinho para depois encampar suas empresas e fechar as fronteiras. Ou, no caso da Colômbia, para dar água, sombra e passe livre aos inimigos, como revelaram as recém divulgadas correspondências entre Caracas e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Afinal, convém devolver justamente a Chávez o criminoso venezuelano Walid Makled, traficante dos mais procurados do mundo, que já implicou a alta cúpula chavista em seu esquema de drogas e armas? Santos o fez, por respeito ao vizinho.

Mas deixar como estava também não dava. Uribe, com razão, caçava as Farc onde estivessem e não titubeou em denunciar o seu patrocinador frente à Corte Internacional Penal. Em troca, Chávez fechou as portas para Colômbia e o comércio bilateral despencou de US$7 bilhões em 2008 para apenas US$1,6 bilhão no ano passado.

Com o mesmo pragmatismo (despudor?), Santos acena para além da região. O acordo de livre comércio com os EUA está emperrado por protecionismo americano travestido de zelo pelos direitos humanos? Santos vira a face, promete mais empenho em proteger cidadãos e conquista o apoio da Casa Branca.

O gesto mais ousado veio agora. No mês passado, Santos presidiu uma reunião para selar a paz e ordem em Honduras. O acordo, costurado na Costa Rica, permitirá o regresso de Manuel Zelaya, presidente deposto e exilado em 2009 quando, à revelia da Constituição, convocou um plebiscito para mudar a lei e abrir caminho para sua reeleição.

Com o novo acordo, Zelaya, acólito de Chávez, não só retorna, mas recupera plenos direitos políticos. É arriscado. Mas pode ser a única forma de reintegrar Honduras à Organização de Estados Americanos, instituição desacreditada, mas ainda referencia para os investidores e as trocas comerciais nas Américas.

Nota-se que o acordo nada teve do Brasil, que abrigou Zelaya em sua embaixada e insistia na sua volta incondicional, enquanto o pau comia nas ruas de Tegucigalpa. E embora Chávez também estivesse em San José, dificilmente teria conseguido solucionar o imbróglio hondurenho sem a presença de Santos - o novo astro da diplomacia latina.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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