Santos prepara-se para posse em meio a rumores de ruptura com Uribe

Denúncia feita por líder colombiano na OEA contra a Venezuela faz crescer na Colômbia a impressão de que há diferenças e incompatibilidades no estilo do presidente e de seu herdeiro político; fontes do novo governo veem crise como oportunidade

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

O presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, já sabia que melhorar as relações com Caracas seria uma tarefa árdua quando fez dessa uma de suas promessas de campanha. O desafio multiplicou-se, porém, após Hugo Chávez romper relações diplomáticas com Bogotá, na quinta-feira, em resposta a uma denúncia feita na Organização dos Estados Americanos (OEA) pelo atual presidente colombiano, Álvaro Uribe.

O incidente fez crescer na Colômbia a impressão de que há fissuras na relação entre Santos e Uribe. Ou ao menos importantes diferenças e incompatibilidades no estilo de ambos, apesar de Santos, ex-ministro da Defesa, ser visto como herdeiro político do atual presidente.

Uribe apresentou na OEA as fotos que comprovariam a presença das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) na Venezuela 16 dias antes de deixar o cargo. Santos tinha até convidado Chávez para a posse. Ele nomeou para a chancelaria a ex-embaixadora María Ángela Holguín, bem vista por Caracas, mas não por Uribe, porque renunciou a um cargo na ONU por discordar de suas indicações políticas.

"Uribe certamente não pediu a aprovação de Santos para levar o caso à OEA. Ele informou seu sucessor, obviamente, mas não lhe deu poder de decisão, até porque será o presidente até o dia 7 e o seu estilo sempre foi centralizador e personalista", disse uma fonte próxima a Santos.

Na semana passada, a revista Semana, de Bogotá, publicou um artigo sobre a tensão entre Uribe e Santos, enumerando alguns sinais de que o presidente eleito quer seguir um caminho independente, o que não agrada a Uribe. Alguns indícios seriam nomeações, como a de María Ángela e a do novo ministro da Agricultura, Juan Camilo Restrepo, um duro crítico de Uribe. Além disso, Santos avalia a indicação de outro dissidente para a pasta do Interior: o ex-presidenciável Germán Vargas Lleras.

Outro sinal de problemas seriam comentários feitos por Uribe sobre os perigos de uma diplomacia "cosmética" e "tola" com os vizinhos. "Uribe não escondeu seu aborrecimento com a mudança de rumos", escreveu a Semana.

Santos passou dois dias ao lado de Uribe para desfazer rumores de uma ruptura, mas uma coisa é certa: ele acredita que seus 9 milhões de votos (mais do que Uribe já obteve no passado) lhe permitem governar de forma autônoma e promete adotar um estilo próprio. "Santos parece querer desmilitarizar as relações exteriores colombianas: deixar a defesa de lado para privilegiar a economia", diz o cientista político venezuelano Carlos Romero (mais informações na página 18).

Assessores do novo presidente preferem ver o rompimento com a Venezuela mais como uma oportunidade do que um problema. Se, apesar de tudo, Santos conseguir retomar as relações, poderá ser visto como o "salvador da política externa" da Colômbia. Se a discussão sobre a presença das Farc nos países vizinhos ganhar espaço em fóruns internacionais, o novo presidente ganharia crédito por resolver dois problemas sem o ônus de ter iniciado um conflito.

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