'São soldados malineses que fazem o combate por terra'

Tropas francesas e de outros países africanos dão apenas apoio de artilharia, diz oficial que é 'homem forte' do Mali

Entrevista com

BAMAKO, / L.S., O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2013 | 02h06

O capitão Amadou Sanogo liderou um golpe militar em março, alegando que o então presidente Amadou Touré não estava sendo capaz de defender o Mali do avanço dos separatistas tuaregues e dos radicais islâmicos. Entretanto, depois do golpe, os insurgentes continuaram avançando. Sanogo resistia à ideia de intervenção estrangeira, exigindo em seu lugar que a comunidade internacional enviasse armas ao Exército malinês, que deveria se encarregar de enfrentar a rebelião (e garantir seu papel de homem forte do país).

Sanogo destituiu e colocou sob prisão domiciliar em dezembro o primeiro-ministro que ele havia nomeado, Cheick Diarra, por seus contatos com países vizinhos para organizar uma intervenção regional. O capitão parecia prestes a fazer o mesmo com o presidente interino Dioncoundas Traoré, quando, no dia 10, os radicais islâmicos cruzaram a linha de demarcação do conflito, avançando em direção à capital, Bamako. Provavelmente sem consultar o capitão, Traoré teve a iniciativa de telefonar para o presidente francês, François Hollande, e pedir ajuda.

A intervenção francesa, iniciada um dia depois, deslocou Sanogo do centro do poder e, desde então, de seu quartel-general em Kati, 15 km ao sul de Bamako, ele tem tentado se adaptar à nova realidade. Em entrevista ao Estado, na base de Kati, seu porta-voz, o tenente Mohamed Coulibaly, garantiu que o chefe da junta militar apoia a intervenção francesa. E sublinhou que os soldados malineses, não os franceses, estão reocupando o norte. Seguem trechos da entrevista, feita na sexta-feira.

Qual a posição do capitão Sanogo em relação à intervenção francesa?

O capitão é favorável à intervenção. Aqueles que dizem o contrário estão mentindo. São soldados malineses que fazem o combate por terra. Nenhum soldado da França ou dos outros países africanos disparou um só tiro. Os soldados africanos estão estacionados em Markala (254 km ao norte de Bamako), onde não há nada. Os franceses ficam na retaguarda. Eles bombardeiam e nós avançamos e ocupamos. O capitão quer a ação dos militares. Eles são dessas cidades e têm pressa de recuperá-las, para voltar para suas casas e seus quartéis.

Mas depois do golpe, os insurgentes continuaram avançando.

Precisávamos de equipamento para enfrentá-los, pois eles estão bem armados. O Mali já havia comprado esse equipamento e o capitão estava pedindo aos países fornecedores que o entregassem. Agora, esse equipamento (retido pelos países vizinhos em razão do golpe) finalmente está chegando.

Há uma corrida contra o tempo para desocupar o norte antes de março, quando começa o verão, as temperaturas chegam a 50 graus e as tempestades de areia dificultam a ação?

Isso não é problema. Nossos soldados estão habituados a essas condições e conhecem bem o terreno.

De onde os insurgentes recebem dinheiro?

Do tráfico de cocaína. A droga sai do Brasil e de outros países da América do Sul, passa por aqui e vai para a Europa. E também de sequestros de pessoas como você, cujos países pagam centenas de milhares de euros em resgate. Cada combatente deles recebe 500 mil francos (R$ 2.143) por mês.

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