Sapatada em Bagdá iguala vencedor e vencido

Não apenas um, mas dois sapatos atirados contra a cabeça de um presidente americano não é algo que se vê todo o dia. Estamos de alma lavada. Bush nos proporcionou um grande prazer antes de sua saída. E se esquivou dos dois projéteis com a destreza de um Pelé. O incidente teve o mérito de corrigir algumas idéias falsas. Bush não é um incapaz. Sabe, ao menos, abaixar a cabeça quando recebe uma sapatada. E ainda observou que o agressor tinha os pés grandes, número 42. O episódio é sério: quando se trabalhou uma vida inteira para chegar à presidência, receber uma sapatada na cara é bem triste. Ainda mais quando os sapatos são iraquianos. Ser fustigado com sandálias, sapatos ou tênis, é a pior das afrontas em um país árabe. O responsável pela sapatada tentou explicar o gesto. Antes de ser dominado, Muntadhar al-Zaidi gritou: "Este é o beijo de adeus do povo iraquiano, cachorro!" Adeus a Bush, adeus aos EUA, adeus a essa guerra estúpida que pode ser sintetizada em duas imagens idênticas e incompatíveis: a primeira, em 2003, quando soldados dos EUA derrubaram a monumental estátua do líder iraquiano Saddam Hussein. Vimos o povo se vingar de 20 anos de sofrimento esbofeteando a estátua do tirano com suas sandálias. Cinco anos depois, o vencedor dessa guerra, George W. Bush, é "bombardeado" por sapatos número 42. Uma imagem trágica? De qualquer modo, uma imagem simbólica: os dois atores da tragédia mais imbecil do século, Saddam, o vencido, e Bush, o vencedor, são desprezados e atacados com sapatos. E sapatos que contam uma verdade curiosa. O vencedor é também o vencido. IMAGENSA história do mundo é um álbum de imagens. Na França, é a imagem da destruição da Bastilha, em 1789, a beleza do jovem Bonaparte sobre a ponte de Arcole. No Brasil, é o enforcamento de Tiradentes, em 1792, e a imagem de D.Pedro I às margens do Ipiranga gritando "Independência ou Morte!", em 1822. O sapato de Bagdá fará parte da mitologia das grandes imagens do nosso obscuro destino? Cabe à "câmara escura" do tempo revelar, como um clichê fotográfico, tais episódios. Às vezes, uma cena simples é glorificada, enquanto outra, aparentemente forte, se dissipa. Qual será o destino da sapatada de Bush? Uma cena cômica sem conseqüências, como desejam os EUA? Ou o anúncio de um declínio? Há meio século, os americanos foram desafiados por um outro sapato. Na ONU, o líder da União Soviética, o extravagante Nikita Kruchev, bateu como um louco o seu sapato sobre a mesa, protestando contra uma decisão desagradável para o seu país. Na ocasião, o presidente americano era John Kennedy, um líder jovem e magnífico. O sapato de Kruchev não o intimidou. Hoje, um presidente desonrado também é vítima de um sapato. Ele, contudo, está às vésperas de partir. Outro presidente vai substituí-lo, o democrata Barack Obama, que parece ter capacidade de fazer com que se esqueça a lembrança de dois sapatos iraquianos lançados na cabeça do Ocidente. * Correspondente em Paris

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