Bruno Cerimele/AP
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Saques em dois terços das províncias e 12 mortes põem Cristina sob pressão

Roubos que crescem em razão de greves das polícias regionais atingiram 1.888 estabelecimentos comerciais e causaram prejuízo estimado de US$ 100 milhões, segundo empresários

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

11 de dezembro de 2013 | 23h32

BUENOS AIRES - Os saques registrados em 16 das 24 províncias argentinas desde a semana passada atingiram 1.888 estabelecimentos comerciais e provocaram um prejuízo de US$ 100 milhões, estimou ontem a Confederação Argentina das Empresas de Médio Porte (Came). Os saques ocorrem durante greves de policiais que já atingiram 20 províncias. Entre os 12 mortos, há criminosos alvo da polícia e de cidadãos, saqueadores eletrocutados em ação e comerciantes.

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A província com mais vítimas é Tucumán, no norte da Argentina, onde 3 morreram. Na noite da terça-feira, uma multidão organizou nessa região um panelaço contra o governador José Alperovich, aliado da presidente Cristina Kirchner. Os manifestantes, que exigiam mais segurança e medidas contra os saques, foram reprimidos pelos policiais, que horas antes haviam encerrado a greve.

Enquanto a polícia disparava balas de borracha contra os manifestantes que pediam mais segurança, saqueadores agiam a poucos quilômetros dali. As diversas forças de segurança locais exigem aumentos salariais de 35% a 100%.

A tensão continuava ontem na província, com centenas de moradores armando barricadas em Banda del Rio Salí, na periferia de Tucumán, para resistir às invasões de saqueadores. Os moradores exibiam espingardas e coquetéis molotov, dispostos a impedir os saques.

Na véspera, centenas saquearam a empresa de laticínios Sancor. Entre os ladrões estava um casal que levou seu bebê em um carrinho. Com a chegada da polícia, o casal fugiu com os produtos. Na pressa, deixou no lugar a criança no carrinho, encontrado pelos policiais.

Um dos mortos nos saques na semana passada foi o comerciante chinês, Jin Lang, na cidade de Glew, na Grande Buenos Aires. Em razão de dezenas de saques contra imigrantes, a Câmara de Supermercados Chineses anunciou que seus empresários avaliam fechar as portas a partir do dia 20, como prevenção, reabrindo em janeiro. Imigrantes e seus descendentes controlam 40% dos pequenos mercados argentinos.

O dia 20, aniversário dos conflitos sociais que provocaram a renúncia do presidente Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001, é a data divulgada em redes sociais para uma nova onda de saques em todo o país.

Na cidade de Concórdia, Província de Entre Ríos, há um clima de histeria, de acordo com o chefe da polícia, Lucio Villalba. Segundo ele, os moradores disparam para o alto, já que "enxergam saqueadores por todos os lados, mesmo não ocorrendo saques". Villalba afirma que boa parte da paranoia é causada por mensagens nas redes sociais.

A presidente Cristina Kirchner declarou, na terça-feira à noite, que a onda de saques que atinge a Argentina foi "planejada com precisão cirúrgica". Ela também afirmou que "existe uma instigação política" por trás das greves das polícias provinciais, que deram espaço aos saques.

Cristina condenou os saqueadores, aos quais qualificou de violentos e de antidemocráticos. Com ironia, ela rejeitou a teoria de que os saques, iniciados na semana passada, em Córdoba, e espalhados por 16 províncias, eram o efeito de um "contágio". "Para mim, contágio é catapora ou caxumba."

AVANÇO

Silvia Mercado, especialista em comunicação estratégica, afirmou ao Estado que as declarações de Cristina possuem um elemento inédito. "Pela primeira vez, ela reconheceu a existência de um problema grave, os saques e as greves policiais. Isso é uma evolução política da presidente, que antes se negava a admitir cenários complicado. No entanto, existe um fator preocupante: ela continua achando que são conspirações contra ela e seu governo."

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