Sarah coloca em xeque força do voto feminino

Analistas dividem-se sobre se vice de McCain, conservadora e antiaborto, terá fôlego para atrair eleitoras de Hillary

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

As chamadas "mães do Wal Mart" - eleitoras brancas, de classe média baixa, mais de 40 anos, conservadoras e com problemas econômicos - migraram em massa para o candidato republicano John McCain por causa de sua vice, Sarah Palin, e podem ser decisivas nesta eleição. Segundo Georgia Duerst-Lahti, professora de Ciência Política do Beloit College e especialista em questões femininas, Sarah desperta o mesmo tipo de paixão entre as mulheres que a pré-candidata democrata Hillary Clinton despertava. "Mas Sarah se concentra em dois grupos de mulheres - o primeiro inclui aquelas eleitoras que não se preocupam muito com política e vão votar em McCain porque Sarah se ?parece com elas?, passa pelos mesmos problemas", diz. O segundo grupo são as mães do Wal Mart. "Elas tendem a ser republicanas de qualquer maneira - Hillary poderia ter atraído esses votos, mas para Barack Obama sozinho será muito difícil", acrescenta Georgia. A grande questão é o poder de Sarah de atrair o eleitorado feminino de modo geral, já que ela se destaca por posições essencialmente antifeministas - é contra o direito ao aborto, contra leis para igualdade de pagamento, contra expansão de programas de ajuda para mulheres. Será que ela consegue conquistar o voto feminino em geral, ou apenas o conservador?Kathleen Dolan, professora de Ciência Política na Universidade de Wisconsin em Milwaukee, não está tão certa. "É possível que algumas eleitoras moderadas ou democratas acabem votando na chapa republicana por causa dela. A história nos diz que dificilmente as pessoas votam em uma chapa por causa do vice, mas esta situação é totalmente nova, então não sabemos como os eleitores vão reagir", afirma. Kathleen lembra que algumas feministas consideram Palin uma antifeminista porque as posições dela são contrárias à agenda tradicional feminista. "Mas Sarah também representa os interesses femininos, ela conseguiu combinar uma carreira bem-sucedida com a criação dos filhos. Além do mais, muitas mulheres são contra o aborto", diz Kathleen.As mulheres tradicionalmente votam em democratas. Portanto, uma migração do eleitorado feminino em geral para a chapa republicana seria muito significativa. Na pesquisa Washington Post-ABC News divulgada na semana passada, McCain deu um salto entre as mulheres brancas - ele estava 8 pontos atrás Obama nesse eleitorado, e depois do anúncio da vice ficou 12 pontos na frente.Obama ainda não conquistou as mães do Wal Mart, conservadoras que eram fãs de Hillary e acham que o candidato democrata não tem experiência suficiente. Enquanto isso, os republicanos exploram ao máximo o fato de Sarah ser mulher - e de Obama ter rejeitado Hillary para vice. "Se Hillary estivesse na chapa, Obama estaria em uma posição melhor com o eleitorado feminino", disse a congressista republicana Candice Miller.Para Georgia, apenas um pequeno porcentual das eleitoras de Hillary vai votar em Palin pelo simples fato de ela ser mulher. As posições são muito diferentes. Além de Sarah condenar o aborto até em casos de estupro, incesto e defeito congênito grave, ela prega o ensino de abstinência como único método contraceptivo, aprova a inclusão do criacionismo no currículo escolar e não acha que os humanos provocam o aquecimento global.Até agora, uma das únicas feministas a sair em defesa de Sarah foi a polêmica Camille Paglia. "Apesar de ela ser conservadora, Palin representa uma explosão de um novo estilo vigoroso de feminismo americano", escreveu Camille na revista eletrônica Salon. "Palin deu o maior passo para redefinir o papel de autoridade e liderança feminina desde que Madonna incorporou a personagem dominadora de Marlene Dietrich e enfiou goela abaixo do establishment feminista um novo feminismo pró-sexo e pró-beleza."

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