Sarah Palin é um Dick Cheney com batom

John McCain achou a neoconservadora ideal para sua chapa: agradável por fora, vazia por dentro

Arianna Huffington*, O Estadao de S.Paulo

20 de setembro de 2008 | 00h00

Sarah Palin talvez não tivesse conhecimento do que é a Doutrina Bush, mas nós agora estamos tendo uma razoável idéia do que seja a Doutrina Sarah. Ou do que será - porque ainda se encontra em fase de elaboração. E como será? Digamos que parece algo familiar.Segundo o jornal Daily Telegraph de Londres, os arquitetos da Doutrina Sarah são algumas pessoas que se mostraram particularmente equivocadas a respeito de praticamente tudo na última década - os neoconservadores, que, há semanas, estão preparando Sarah. Como se previa, o fato de que ela não soubesse nada não era uma falha, era mesmo uma característica. Ela é perfeita para os neoconservadores: agradável por fora, vazia por dentro. Para usar um velho chavão, se Sarah Palin não existisse, os neoconservadores teriam de inventá-la. De fato, é assim que a descreve um ex-assessor da Casa Branca: "Promete muito e é uma página em branco. Ela vai longe e vale a pena pegar carona com ela."Evidentemente, o lugar ao qual seus mentores neoconservadores esperam que ela chegue é a Casa Branca. Considerando os medíocres antecedentes que podem exibir, eles são até bastante espertos para imaginar que o público americano não estaria muito ansioso por deixá-los entrar de novo pela porta da frente, então tentam esgueirar-se por trás das saias de Sarah. É o Alce de Tróia se aproximando.O Telegraph conta em detalhes como os caçadores de talentos neoconservadores detectaram sua Eliza Dolittle (My Fair Lady) política no verão de 2007. Sua relação amorosa começou, com toda a propriedade, em um barco do amor: "Fontes da campanha de McCain, do Partido Republicano e especialistas de Washington dizem que a senhora Palin foi identificada como uma futura líder em potencial da causa neoconservadora em junho de 2007. Foi quando o cruzeiro anual de verão organizado pela revista de centro-direita Weekly Standard aportou em Juneau, a capital do Alasca, e os gurus a bordo tomaram chá com a governadora."Não surpreende que o maior fã de Sarah seja Bill Kristol, que a descreve como a "imagem do conservadorismo jovem, atraente, que não se importa com justificativas", que "persegue as elites liberais". Entre seus outros professores está o neoneoconservador Joe Lieberman, que estaria preparando Sarah para seu grande baile - o debate com Joe Biden.Ela já passou com sucesso no seu primeiro teste, mostrando-se pronta para vincular os fatos do 11 de Setembro ao Iraque, o que nem o próprio presidente mais pensa em fazer. Na semana passada, ela disse a um grupo de soldados que embarcava para o Iraque que eles iriam "defender os inocentes dos inimigos que planejaram e realizaram ataques e tripudiaram das mortes de milhares de americanos".CLUBE NEOCONSERVADOREvidentemente, os neoconservadores sabem que já têm uma aliada no topo da chapa do venerável Partido Republicano. Talvez McCain tenha sido um reformista na questão das finanças de campanha, mas em matéria de política externa sempre apoiou firmemente o clube neoconservador. Ele adora exibir suas credenciais de política externa contando que já pretendia demitir Donald Rumsfeld antes que Bush o fizesse. Ele só não fala muito sobre o fato de que, nos dias imediatamente após o 11 de Setembro, fez parte da multidão neoconservadora ansiosa para invadir o Iraque.Poucos dias depois do ataque, McCain já falava em "alguns outros países" que ajudaram Bin Laden: Síria, Irã, e... o Iraque. E semanas mais tarde, comparecendo a um programa de David Letterman, no dia 18 de outubro de 2001, McCain respondeu a uma pergunta sobre o andamento da guerra no Afeganistão anunciando que a invasão do Iraque seria "a segunda fase" da guerra ao terror (mas não é que ele sabia antes de todo mundo que Saddam não desistiria daquelas armas de destruição em massa inexistentes?). E como se não bastasse, tentou reforçar a justificativa do ataque ao Iraque afirmando que a recente série de atentados com antraz "pode ter vindo do Iraque". E por que não de Fort Detrick?Seis anos mais tarde, demonstrando que havia aprendido muito pouco com a debacle no Iraque, McCain chamou Randy Scheunemann, figura muito popular entre os neoconservadores, que ajudou a formar o Comitê para a Libertação do Iraque em 2002, para ser seu principal assessor de política externa.E agora, sempre segundo o Daily Telegraph, Scheunemann está preparando Sarah.Talvez McCain tenha sido precipitado ao escolher Sarah, mas sua escolha não foi aleatória. A visão de mundo dos neoconservadores pode ser desastrosa, perigosa, desacreditada e mortal, mas está longe de estar morta. Seu santo patrono, Dick Cheney, a carrancuda personificação da Doutrina Neoconservadora, tinha "bagagem" demais - e níveis de aprovação mínimos - para se lançar a uma candidatura à Casa Branca.É por isso que a escolha de Sarah foi tão brilhante. Por fora, ela é incomensuravelmente mais agradável e talentosa em se relacionar com as pessoas do que Cheney jamais foi. Mas por dentro, quando concluir sua formação na escola neoconservadora, ela será um Dick Cheney perfeito e total. De batom.*Arianna Huffington, publisher do blog político ?The Huffington Post?, escreveu este artigo para ?Global Viewpoint?

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