Eric Feferberg/AFP
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Sarkozy aposta em debate para tentar reverter desvantagem contra Hollande

Presidente e candidato socialista, favorito nas pesquisas, se enfrentam a quatro dias do segundo turno das eleições francesas

Daniela Fernandes, BBC

02 Maio 2012 | 05h06

Texto atualizado às 8h11

PARIS - O primeiro e único debate na televisão, na noite desta quarta-feira, 2, entre o presidente Nicolas Sarkozy e o candidato socialista, François Hollande, a quatro dias do segundo turno das eleições presidenciais francesas, será um confronto de personalidades opostas.

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Esse único choque direto entre os rivais é a última cartada de Sarkozy para tentar reverter sua derrota apontada em todas as pesquisas sobre o segundo turno, no domingo.

Por este motivo, a imprensa francesa e analistas estimam que Sarkozy, famoso por sua energia sem limites, será extremamente combativo, outra de suas principais características.

Em 2007, no debate na TV contra a socialista Ségolène Royal, comentou-se que Sarkozy tinha a estratégia de se mostrar controlado frente à rival para não ser acusado de ser agressivo com uma mulher.

"Eu vou explodir o Hollande, vou destruí-lo, vou puxar a metralhadora", teria afirmado o presidente em relação ao adversário, segundo o jornal Le Canard Enchaîné, especializado nos bastidores da política francesa.

Estilos

O estilo impulsivo de Sarkozy, que já o levou a insultar pessoas em eventos públicos, com vocabulários normalmente não utilizados por presidentes, também é uma marca de sua personalidade.

Sarkozy propôs três debates na TV ao rival, que só aceitou o único inicialmente previsto. Hollande alegou que nas eleições anteriores somente um debate havia sido realizado.

Favorito nas pesquisas, com 53% a 55% dos votos, Hollande, segundo analistas, preferia evitar outros confrontos diretos com Sarkozy, que poderiam prejudicá-lo.

Se Sarkozy é visto como combativo, Hollande, ao contrário, é tido como conciliador, alguém que prefere evitar confrontos. Secretário-geral do partido socialista de 1997 a 2008, ele atuou para encontrar um consenso entre diferentes correntes do partido e evitar sua divisão.

"O debate não é uma luta de boxe. Eu não tenho esse comportamento. Isso é o estilo dele (Sarkozy), mas não o meu", disse Hollande na terça-feira, acrescentando que o debate "é importante, mas não é decisivo".

Durante as primárias socialistas para as eleições presidenciais, Hollande foi acusado por membros de seu próprio partido de ser "mole", "vago" em suas propostas e de não ter a estatura de um presidente.

O socialista foi apelidado nesta campanha por seus opositores de flã "Flanby", uma sobremesa da Danone.

Ele se define como um "homem normal", em oposição ao estilo exuberante de Sarkozy. O socialista chegou a dizer que continuaria tomando trens mesmo se for eleito.

Hollande, que perdeu vários quilos antes de se candidatar para, segundo comentários, assumir um ar mais solene, também é famoso por suas frases de humor.

Programas

No debate nesta quarta, o presidente hiperativo e onipresente - que acabou atuando na prática, pela primeira vez na França, como chefe de Estado e primeiro-ministro ao mesmo tempo - deverá tentar mostrar que somente ele teria experiência para o cargo.

Hollande nunca foi ministro ou ocupou uma função governamental.

O socialista assegurou que não "treinou" para o debate desta quarta com alguém no papel de Sarkozy, como foi comentado na imprensa francesa.

O debate não será apenas um confronto de estilos, mas também de programas de governo.

Hollande prometeu modificar a reforma da aposentadoria feita por Sarkozy para permitir que pessoas que começaram a trabalhar jovens possam se aposentar aos 60 anos em vez de 62 anos.

Ele também disse que cancelará o aumento de um imposto semelhante ao ICMS brasileiro (chamado TVA, na França) que deve entrar em vigor em outubro.

O governo aumentou a alíquota desse imposto para financiar o seguro social. Em contrapartida, concedeu exoneração de encargos trabalhistas para aumentar a competitividade industrial do país.

O debate começará com discussões econômicas, sobre a dívida pública, o desemprego e a crise, e abordará também questões sociais, como a saúde e imigração, e internacionais, que se concentrarão sobre a presença militar francesa no Afeganistão e o terrorismo.

Uma parte das discussões também abordará o tipo de presidente que a França deve ter.

Especialistas avaliam que o debate, no entanto, dificilmente deverá mudar o resultado final da votação, devido à grande diferença a favor de Hollande, de seis a dez pontos percentuais, segundo pesquisas.

O debate deve durar duas horas e meia e deverá ser visto por mais de 20 milhões de telespectadores.

Tudo foi definido em conjunto entre as equipes dos dois candidatos, até a temperatura do ar condicionado. As câmeras não poderão mostrar as reações do rival enquanto um deles estiver falando.

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