Sarkozy começa a deportar ciganos

França ignora críticas e pretende destruir metade dos acampamentos ilegais do país

Jamil Chade ENVIADO ESPECIAL THONON, FRANÇA, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2010 | 00h00

Perseguidos. Crianças cigadas dividem comida doada por ONG no campo francês de Roubaix  

 

 

 

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, começa hoje a expulsar ciganos que vivem de forma irregular no país. O primeiro grupo sairá em um avião fretado pelo governo em direção à Bulgária e à Romênia, levando 79 pessoas. O objetivo é remover mais de 700 ciganos da França em apenas 10 dias e destruir 300 dos 600 acampamentos ilegais que existem no país.

A política adotada por Sarkozy causou um mal-estar na União Europeia, já que a medida se refere à expulsão de cidadãos de países da própria UE. A ONU alerta para as medidas "de cunho racista" do governo francês. Para a Romênia, a decisão ameaça provocar um "surto de xenofobia".

No acampamento visitado pela reportagem do Estado, na estrada que liga as cidades de Évian e Thonon, o clima é de tensão. "Somos europeus, mas não somos bem-vindos", afirmou Nicolau, representante da comunidade, que trabalha na construção civil da região. "Tenho visto de trabalho porque a França precisa de mim. Mas se não fosse pelo fato de fazer algo que um francês se recusa a fazer não teria sido aceito", disse o rapaz, de 32 anos, de Bucareste.

Um dos pilares da UE é a livre circulação de seus cidadãos, exceto no caso de Bulgária e Romênia, dois dos países mais pobres do bloco e principais locais de origem dos ciganos na Europa. Pelo acordo assinado em 2007, romenos e búlgaros podem viajar para a França, mas a permanência fica restrita a apenas três meses. O acesso ao mercado de trabalho é limitado a 150 áreas que enfrentam escassez de mão de obra.

"Não adianta expulsar. Se somos enviados para um lugar onde não existe trabalho, voltaremos", garantiu Anica, jovem de 17 anos que vende rosas para os turistas que passam pelas cidades francesas.

No total, 15 mil pessoas da comunidade cigana vivem em acampamentos na França. Para Laurent El Ghozi, da entidade que reúne o grupo na Europa, Sarkozy não conseguirá expulsar os 700 que prometeu, mesmo que tenha destruído 51 acampamentos. Isso porque a viagem é voluntária e parte dos que viviam nos lugares destruídos simplesmente fugiu.

No acampamento de cerca de 200 pessoas nos arredores de Thonon, as imagens são bem diferentes das que a França tenta vender ao mundo. Luz elétrica existe para os poucos que conseguiram comprar um gerador. Mais da metade das crianças não vai à escola, já que os pais temem que as famílias ilegais sejam identificadas. Não há sistema de esgoto e o lixo só é coletado quando o cheiro se torna insuportável.

A estratégia do grupo é deixar os trailers na área visível do acampamento, impedindo que os barracos e a situação degradante sejam vistas. O terreno foi dado pela prefeitura de Thonon, mas fica estrategicamente situado nos limites da estrada.

Ao saber da presença de um jornalista no local, um dos ciganos trouxe um jornal francês para mostrar que o líder da comunidade na Áustria chama-se Rudolf Sarkozi e tem origem húngara, assim como o presidente francês. "Sarkozy deveria saber de onde vem", disse Adrian, de 63 anos.

PARA ENTENDER

Grupo reúne 12 milhões na Europa

Se a origem da população cigana é alvo de debates acadêmicos, a realidade é que o grupo representa entre 10 milhões e 12 milhões de pessoas na União Europeia. A primeira onda de migração teria ocorrido há mil anos na região onde hoje é a Romênia. A partir de 1450, os ciganos alcançaram cidades da Europa Ocidental.

O nazismo e seus aliados fascistas perseguiram a população cigana. Durante os regimes ditatoriais das décadas de 30 e 40, cerca de 25% da população de 1 milhão de ciganos que vivia na Europa foi morta. Na Alemanha, o Parlamento admitiu apenas em 1979 que as vítimas poderiam pedir compensações, com os mesmos direitos que os judeus.

Em um recente relatório, a Anistia Internacional alerta que a população cigana vem sofrendo uma crescente onda de discriminação na Europa, com casos de violência na Itália, França, no Leste Europeu e até mesmo na Romênia. Para a ONU, a comunidade é atualmente o maior desafio enfrentado pela União Europeia em termos de garantias de direitos humanos entre seus próprios cidadãos. / AP

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