Sarkozy e Hollande mostram-se como 'o novo' em 1º duelo

Candidatos fazem promessas protecionistas para agricultores; para The Economist, campanha francesa é 'a mais frívola do Ocidente'

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

30 Março 2012 | 03h06

Empatados na campanha eleitoral à presidência da França, o atual presidente, Nicolas Sarkozy, e seu opositor socialista, François Hollande, tiveram ontem, em Montpellier, seu primeiro duelo direto de campanha. A 25 dias das eleições para o Palácio do Eliseu, os dois candidatos lançaram mão de propostas protecionistas para o mundo agrícola e trocaram farpas, brigando pelo título de mais "inovador".

O primeiro encontro entre os candidatos reuniu sete dos dez aspirantes ao Palácio do Eliseu e foi realizado na sede da poderosa Federação Nacional dos Sindicatos de Produtores Agrícolas (FNSEA). A organização conta com 3 milhões de afiliados, a maioria alinhada a candidatos da direita. Sentindo-se em casa, Sarkozy partiu para o ataque em seu discurso de 15 minutos - sem debate. Depois de crescer nas últimas cinco semanas, o chefe de Estado tentou cercar Hollande, acusando-o de ser retrógrado e apresentando-se como o candidato da mudança, ainda que busque a reeleição. "A mudança somos nós, pois nós trazemos as ideias novas", discursou, sob o aplauso dos agricultores.

Fiel ao seu estilo voluntarista, Sarkozy propôs a criação de um "Small Business Act", uma lei válida para toda a União Europeia criando reserva de mercados públicos para as pequenas e médias empresas dos 27 países do bloco. Assim, fatias do orçamento público destinadas à compra de merenda escolar, por exemplo, seriam reservadas às companhias europeias, excluindo da concorrência os produtores de alimentos estrangeiros - o que poderia prejudicar o acesso a mercados de produtores do Brasil. Segundo o presidente, se Bruxelas não adotar a norma no prazo máximo de um ano, seu governo o fará de forma unilateral. "Creio na concorrência, mas na concorrência leal, em igualdade", justificou.

Em seu discurso, feito minutos antes, Hollande já havia usado as mesmas estratégias que seu adversário empregaria. "Nada impedirá a mudança", disse o socialista, apresentando-se como a "única força" capaz de vencer "as forças da submissão, da divisão e do dinheiro".

"A vitória é de vocês. A mudança virá em 22 de abril", assegurou. Entre suas propostas, Hollande também defendeu uma reserva de mercados públicos aos produtores da Europa, limitando a concorrência. Mas seu projeto prevê que 40% - e não 100% - de mercados como o de compra de alimentos pelo Estado seja fechado aos produtores estrangeiros.

O encontro da FNSEA, dedicado à agricultura, acentuou o tom rude da disputa entre os dois favoritos. Desde os atentados de Toulouse e Montauban, há dez dias, os dois favoritos trocam farpas em público. O presidente acusa seu opositor de fraqueza na tomada de decisões. "François Hollande não votou a favor de nenhuma das leis antiterroristas, atrás das quais ele se esconde", criticou, afirmando que seu opositor "tergiversa, hesita, se esquiva e se recusa a votar as leis".

Hollande respondeu afirmando que Sarkozy cria leis "a cada momento". "É preciso aplicar a lei, não inventar uma a cada momento, segundo as circunstâncias. É preciso dar meios à polícia e à Justiça e parar com a demagogia", afirmou.

Pesquisas. Segundo as pesquisas eleitorais, nem os atentados terroristas, nem o bate-boca recente mudaram a tendência das últimas semanas. Sondagem do instituto Ipsos mostra que Sarkozy segue subindo no primeiro turno, com 27,5% dos votos. Hollande tem 28%. No segundo turno, o presidente também sobe, mas a tendência continua sendo de vitória do socialista, com 54%. Sarkozy teria 46%.

Sarkozy e Hollande são os protagonistas de uma campanha eleitoral fria e marcada pela falta de propostas inovadoras para a economia do país. Em sua edição deste fim de semana, a revista britânica The Economist classificou o pleito francês como "a campanha mais frívola do Ocidente".

Para o cientista político Pascal Perrineau, um dos diretores do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po) de Paris, a pobreza da campanha provoca um risco de abstenção como forma de protesto, em especial entre as classes mais altas. "Os temas da campanha são decepcionantes, assim como os candidatos", afirmou Perrineau.

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