Sarkozy e os reflexos da derrota

Há algumas semanas, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, andava muito calmo. Seus assessores disseram-lhe que seria melhor ficar calado do que dizer besteira. Então, ele resolveu parar com seus discursos, fazer uma "cura de discrição".

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Sarkozy tornou-se um homem humilde, discreto, afável, respeitando as pessoas, e segurando a língua. Fato tão excepcional que, ao passar na frente do nobre Palácio do Eliseu, sede do governo francês, as pessoas começaram a se perguntar se o seu ocupante estava vivo. O naufrágio dos "azuis" deu a resposta: sim, Sarkozy está mais vivo do que nunca.

Ele voltou a cometer seu pecado favorito, que é de se ocupar pessoalmente de tudo que não vai bem na França. Temos de admitir que, no caso do futebol, as coisas vão realmente muito mal, com os franceses divididos entre duas tentações: a nulidade ou o ridículo. Sarkozy reagiu rapidamente.

Na quinta-feira, 2 milhões de pessoas desfilavam pelas ruas de Paris, em protesto contra o projeto de reforma das aposentadorias.

Ora, nesse exato dia, Sarkozy deveria receber o ex-capitão da equipe da França, Thierry Henry. E também a presidente da Suíça. O que fazer? Cancelar o encontro com o jogador? Não. Mas a reunião com a presidente da Suíça foi adiada.

Como explicar esse delírio? Certamente, Sarkozy é um apaixonado por esportes, que acompanha com deleite. Um real especialista. Mas isso não explica tudo. O presidente sabe que os resultados de uma Copa do Mundo de futebol têm influência na política. Em 1998, quando a França derrotou o Brasil, a taxa de popularidade do então presidente Jacques Chirac subiu 15%.

A Copa também influi na economia. Ruben van Léeuwen e Charles Kalshoven já provaram que um país cuja equipe conquista a Copa do Mundo contabiliza um aumento de 0,70% do seu Produto Interno Bruto (PIB).

Além disso, muitos franceses culpam seu chefe, Sarkozy, pelo papel grotesco de sua equipe. São inúmeros os artigos demonstrando que uma Copa do Mundo é o espelho de um país e, portanto, o espelho do seu presidente.

Se os jogadores Anelka e Ribéry são canalhas ou imbecis, é porque Sarkozy não vale muita coisa.

Por essa razão o presidente francês, que já tem muitos problemas urgentes e de difícil solução, parou tudo e partiu em socorro do pobre futebol francês. E já está preparando "Estados Gerais do futebol".

Vários comentaristas culparam a comunidade africana, que tem um grande número de jogadores na equipe francesa. Para alguns, o detestável comportamento desses jogadores franceses originários da África é a prova de que a França fracassou na integração de seus imigrantes e, além disso, todos os imigrantes negros são figuras grosseiras, egoístas e arrogantes.

Lembremos que em 1998, quando a equipe da França venceu o Brasil (e sempre se perguntou como conseguiu) os analistas explicaram que o racismo tinha desaparecido da França, e a integração dos negros foi um triunfo.

Os editoriais exortaram os méritos da equipe "black-blanc-beur" (que significa preta, branca e argelina). Ora, dez anos depois, a equipe francesa, que continua "preta, branca e argelina", quebrou a cara.

Conclusão, os comentários de 1998 eram estúpidos. Os de 2010 são também imbecis.

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