Sarkozy: 'Luxemburgo poderia acolher ciganos'

Presidente francês reage com ironia às críticas de Bruxelas à deportação de imigrantes, mas acaba isolado após condenação da Alemanha

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

A política de expulsão de ciganos romenos e búlgaros do território francês pelo governo de Nicolas Sarkozy converteu-se ontem em crise política. Um dia depois de a comissária de Justiça da União Europeia, Viviane Reding, que nasceu em Luxemburgo, dizer-se "envergonhada" com as deportações, o presidente da França reagiu com ironia, sugerindo que a executiva acolhesse os imigrantes expulsos.

"Jamais pensei que a Europa seria novamente testemunha desse tipo de situação após a 2.ª Guerra", disse Viviane. Em resposta, Sarkozy ironizou Viviane durante uma reunião com senadores. "Ele disse que não há nada a reprovar (na posição) da França, mas que se os luxemburgueses quiserem recebê-los (os ciganos), não há problema", afirmou o senador Bruno Sido.

A ironia, entretanto, mostrou-se um erro político. No fim da tarde, o ministro das Relações Exteriores de Luxemburgo, Jean Asselborn, não escondeu a irritação com o líder francês. "Sarkozy fazer a conexão entre a nacionalidade da comissária e Luxemburgo é algo leviano", afirmou.

Pouco antes, governos como o da Alemanha saíram em defesa do "direito de livre circulação" previsto em tratados europeus. O embaraço diplomático vem crescendo desde julho, quando Sarkozy anunciou que os acampamentos "ilegais" de ciganos romenos e búlgaros seriam fechados e os imigrantes, expulsos.

Desde o primeiro momento, o projeto causou críticas de intelectuais, de ONGs, da ONU e da Comissão Europeia, que, em duas oportunidades, pediu explicações ao Palácio do Eliseu.

Insatisfeita com as justificativas, Viviane convocou a imprensa, na terça-feira, em Bruxelas, para anunciar a abertura de um processo de infração do direito comunitário europeu.

Em termos jurídicos, a medida significa que o Tribunal Europeu de Justiça será acionado para analisar a possibilidade de multar o Estado a francês por discriminação de minorias étnicas. Mesmo que a infração pecuniária tenha efeito econômico pequeno, a repercussão diplomática é grande.

Isolamento francês. Com a declaração do porta-voz do governo da Alemanha, Steffen Seibert, do " apoio incondicional" de seu país ao direito à liberdade de circulação na UE, a França ficou isolada no bloco. Apenas o governo de Silvio Berlusconi, na Itália, manifestou respaldo ao presidente francês, em entrevista ao jornal Le Figaro. O primeiro-ministro italiano já havia iniciado uma política de expulsões similar há dois anos.

SÉRIE DE PROBLEMAS

Previdência

Sarkozy enfrenta sindicatos ao ampliar de 60 para 62 anos a idade mínima da aposentadoria

Imigração

Mais de mil ciganos foram deportados para o Leste Europeu

Anti-islamismo

Lei aprovada no Parlamento proíbe uso de véus integrais

usados por muçulmanas

Financiamento ilegal

Acusação caixa 2 em campanha Sigilo da fonte Jornal acusa Sarkozy de espionar fonte do "Le Monde"

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