Stan Honda/AFP
Stan Honda/AFP

Sarkozy mandou espionar oposição, diz ''Le Monde''

Reportagem reforça suspeitas de que governo usa serviço secreto para fins políticos e mostra que Strauss-Kahn já foi alvo de intriga

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, teria usado os serviços de inteligência e espionagem de seu governo para investigar a vida privada de personalidades políticas de oposição. A revelação foi feita ontem pelo jornal Le Monde e não inocenta o ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, das acusações de violência sexual em Nova York.

No entanto, lança mais dúvidas sobre a legalidade das práticas políticas do Palácio do Eliseu, que estimulam as teorias da conspiração cogitadas no país.

Segundo a reportagem, casos de violação de privacidade são sistemáticos ao menos desde 2002, ano em que Sarkozy assumiu o Ministério do Interior, ao qual estão subordinados os aparelhos secretos. Um deles, o serviço de Informações Gerais (RG), hoje fundido à Direção Central de Informação Interior, teria arquivado informações sobre Strauss-Kahn e outros políticos.

Uma dessas informações foi "vazada" ao Le Monde por fontes do Palácio do Eliseu "há alguns meses", segundo o diário. Tratava-se de um documento redigido em 2007 pelo serviço de espionagem sobre a noite em que o ex-diretor-gerente do FMI teria sido flagrado pela polícia, em seu automóvel, mantendo relações sexuais com uma prostituta em um parque nos arredores de Paris.

A reportagem verificou com fontes distintas a procedência da informação. E todas, sob a condição de anonimato, confirmaram que o Palácio do Eliseu estava por trás do vazamento.

Outro indício forte de que Sarkozy usa o serviço secreto contra seus rivais veio do testemunho de Yves Bertrand, ex-diretor do RG entre 1992 e 2004 - durante gestão do atual presidente. Ele assume ter feito investigações sobre a vida privada de personalidades políticas. "Não sei nada sobre o caso do Sofitel, mas de modo geral ele prova que é legítimo se interessar pela vida privada dos homens públicos", argumentou. "Às vezes me encomendavam investigações para saber se uma pessoa cotada para o governo tinha fragilidades."

Bertrand confirma ainda que um de seus interlocutores com a cúpula do Estado era Claude Guéant, ex-diretor de polícia entre 1994 e 1998, ex-chefe de gabinete de Sarkozy e atual ministro do Interior. "Quando ele era diretor de polícia, depois do gabinete do ministro (entre 2002 e 2004), eu prestava contas a ele. Ele anotava tudo o que eu lhe reportava, até mesmo elementos privados, em um pequeno caderno", disse Bertrand.

Ao site Mediapart - que também denunciou o uso ilegal de serviços secretos para fins políticos na França -, Guéant afirmou em 2008 que as investigações sobre vidas privadas "jamais foram objeto de discussões" com Sarkozy.

As relações promíscuas entre o Palácio do Eliseu e os serviços secretos estão por trás do ceticismo dos franceses em relação ao caso Strauss-Kahn. Uma pesquisa de opinião indicou que 57% dos franceses acreditam na hipótese de complô contra o diretor do FMI, destinado a eliminar o favorito da corrida presidencial de 2012.

Espionagem

IVES BERTRAND

EX-DIRETOR DO SERVIÇO DE INFORMAÇÕES GERAIS

"Às vezes me encomendavam investigações para saber se uma pessoa cotada para o governo tinha fragilidades"

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