Sarkozy, Obama e Israel

Nicolas Sarkozy, em meio a semanas (ou anos) de problemas, teve duas alegrias nos últimos dias. Primeiro, pôde ir à Líbia, a Trípoli e Benghazi, na qualidade de senhor da guerra, como os cônsules romanos, que ao regressar depois dos combates desfilavam em triunfo. Segundo, conseguiu criticar, na ONU, o balanço feito por Barack Obama sobre a questão entre palestinos e Israel. Até se permitiu propor, para romper o impasse que Obama acabava de admitir, uma nova saída - um novo labirinto.

É CORRESPONDENTE, GILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE, GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2011 | 03h06

O momento foi muito bem escolhido. Há tempos Sarkozy morria de vontade de meter-se na questão Israel-palestinos. Mas era visto, contrariamente à tradição diplomática da França, como amigo dos judeus e adversário dos árabes. A proximidade com Israel valeu a Sarkozy uma grande popularidade em Jerusalém. Enquanto De Gaulle era detestado em Israel, Sarkozy era adorado - o mais popular de todos os presidentes franceses desde 1958. Sua opção em favor de Israel decorre certamente de cálculos políticos e diplomáticos, mas também da história familiar de Sarkozy.

Apenas uma vez ele levantou o véu desse mistério, durante uma visita à Grécia, ao lembrar que seu avô materno, Benedict Aaron Mallah, era um judeu de Salonica, que chegou na França em 1904, com 14 anos. Mais tarde, em 2008, pronunciou na Knesset (o Parlamento israelense) um discurso entusiasta: "Israel não está sozinho. A França estará sempre ao seu lado quando sua existência for ameaçada".

Infelizmente, com os Estados árabes não foi tão bem-sucedido. Demonstrou grande amizade pelos líderes africanos mais odiosos: o tunisiano Ben Ali, o egípcio Mubarak, o líbio Kadafi. Mas Sarkozy é uma enguia. Desde o início das "primaveras árabes", ele procurou se reciclar, compreendendo que esses colegas africanos eram uns crápulas, e logo tratou de censurá-los violentamente. Graças a isso, hoje, ele se apresenta como amigo dos "democratas africanos", finalmente livres dos déspotas.

É por isso que Sarkozy continua envolvido no Oriente Médio e poderá vir a exercer certa influência. Nesse exercício, ele demonstra sua habilidade. Enquanto Obama reconhece, na ONU, o fiasco monumental dos EUA no conflito palestino-israelense, Sarkozy, adepto do "voluntarismo integral", recusa-se a deixar a questão exclusivamente aos interessados, como faz Obama. Sarkozy continua achando, ao contrário, que uma coalizão de países deve impor a árabes e israelenses um cronograma rígido antes de qualquer negociação. Será que está certo? Não está se enganando? Pelo menos, ele mostra uma virtude: não se inclina diante da fatalidade. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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