Sarkozy obtém sigilo de áudio usado em processo

Justiça condena ex-conselheiro a indenizar ex-presidente por violar sua privacidade e retira de sites gravações que fazem parte de investigação

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2014 | 02h03

Dois dias depois de ser indiciado pela Justiça da França por crimes de corrupção ativa, tráfico de influência e violação de segredo de Justiça, o ex-presidente da França Nicolas Sarkozy obteve ontem uma vitória nos tribunais. A Corte de Apelações de Paris ordenou que gravações de conversas suas com Patrick Buisson, seu ex-conselheiro no Palácio do Eliseu, sejam retiradas da internet em respeito ao segredo de Justiça.

O ex-chefe de Estado obteve ainda o apoio de seu partido, a União por um Movimento Popular (UMP), caso queira retornar à política. A decisão do tribunal foi anunciada ontem, quando a corte confirmou a condenação de Buisson, que deverá indenizar o ex-presidente e sua mulher, Carla Bruni-Sarkozy, em € 10 mil, por ter violado sua privacidade.

Trechos das gravações, feitas pelo ex-conselheiro quando prestava assessoria ao Palácio do Eliseu, foram reveladas no início do ano pela revista eletrônica Atlantico, que tentou demonstrar que Buisson, um dos assessores mais próximos do ex-presidente, o traía fazendo gravações clandestinas.

Uma investigação, no entanto, está em curso porque uma empresa de Buisson teria sido beneficiada, entre 2007 e 2012, com contratos sem licitação para realizar pesquisas de opinião para a presidência.

Seis investigações envolvendo Sarkozy estão em curso em Paris. Na mais importante delas, o ex-presidente foi indiciado por corrupção ativa e por ter violado o segredo de Justiça em busca de informações sobre investigações sigilosas a seu respeito. Seu advogado e um procurador-geral da República também foram indiciados pelos mesmos crimes.

Sarkozy recebeu ontem o apoio dos mais importantes membros da UMP. O ex-presidente pode disputar a liderança do partido entre 29 de novembro e 6 de dezembro, nas eleições internas. "Que o melhor ganhe e, deste ponto de vista, devo dizer que Nicolas Sarkozy tem um prognóstico muito favorável na UMP", afirmou o ex-premiê Jean-Pierre Raffarin. "Creio que ele está na posição de favorito."

Enquanto Sarkozy prepara seu retorno à política, a Justiça se defendeu ontem dos ataques do ex-presidente. Acusadas de parcialidade e de perseguição, as juízas Patricia Simon e Claire Thépaut foram defendidas pelo principal sindicato de magistrados, órgão que também está na mira de Sarkozy.

"É sempre a mesma coisa com Nicolas Sarkozy. Quando ele é envolvido em um caso, coloca em dúvida a imparcialidade dos juízes", reclamou Françoise Martres, secretária-geral do Sindicato dos Magistrados, em entrevista à TV. "Nós não temos nada contra Sarkozy."

Briga. Em seu pronunciamento na noite de ontem, o ex-presidente propôs que os juízes sejam proibidos de pertencer a organizações sindicais. "Sarkozy confunde neutralidade e imparcialidade. Os magistrados são imparciais. No entanto, um juiz neutro não existe. Cada um tem suas opiniões, suas ideias, o que não quer dizer que deixem transparecer suas opiniões nas decisões que tomam", argumentou Françoise.

Sarkozy ainda responde a seis processos judiciais, a maior parte deles por fraudes que envolvem financiamento clandestino de campanha e caixa 2. Até o momento, porém, o ex-presidente não foi condenado.

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