AFP / MARTIN BUREAU
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Sarkozy promete reformar Europa em troca da permanência do Reino Unido

Ex-presidente em pré-campanha às eleições de 2017 pretende solicitar à primeira-ministra britânica, Theresa May, que convoque novo plebiscito sobre o "Brexit"

Andrei Netto, Correspondente / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2016 | 18h53

O ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, pré-candidato às eleições gerais de 2017, anunciou nesta quarta-feira a intenção de convidar o Reino Unido a voltar às urnas para decidir se quer abandonar, de fato, a União Europeia. Para reverter o "Brexit" – decidido em plebiscito em 23 de junho –, o líder conservador pretende lançar um novo tratado para reformar as instituições do bloco. A proposta foi apresentada em um evento fechado a economistas realizado em Paris na terça-feira, e pressupõe um acordo com a Alemanha que permita refundar a união sobre novas bases, mantendo os britânicos no bloco.

Segundo Sarkozy, sua primeira iniciativa, caso seja escolhido para voltar ao Palácio do Eliseu nas eleições de abril e maio de 2017, será viajar a Berlim para uma reunião com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para discutir um novo tratado para a União Europeia. A proposta de novo texto, cujos detalhes não foram revelados por Sarkozy, seria então levada à primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, que decidiria pela convocação ou não de um novo plebiscito sobre o Brexit, já levando em consideração a união reformada.

"Eu direi aos britânicos: 'Vocês saíram, mas nós temos um novo tratado na mesa e logo vocês têm a oportunidade de votar mais uma vez. Mas dessa vez não sobre a velha Europa, mas sobre a nova. Vocês querem ficar? Se sim, tanto melhor", afirmou Sarkozy aos economistas presentes. "Eu não aceito perder a segunda maior economia da Europa enquanto estamos negociando a adesão da Turquia. Mas se é 'não', então é um verdadeiro 'não'. Ou vocês estão dentro, ou estão fora."

A estratégia de contrariar a vontade popular expressada pelo voto já foi usada por Sarkozy antes. Em 2005, a população da França e da Holanda votaram contra a aprovação da Constituição Europeia, que colocava a "concorrência livre e sem empecilhos" no coração do funcionamento da União Europeia. Dois anos depois, quando eleito, o presidente da França articulou a criação de um novo texto, o Tratado de Lisboa, aprovado pelos parlamentos nacionais – sem passar pelo voto popular. 

O texto reforçou a independência da Comissão Europeia em relação aos governos nacionais, criou o posto de presidente do Conselho Europeu – o representante dos chefes de Estado e de governo – e o de alto representante da UE para Relações Exteriores. "Não creio que o plebiscito seja a melhor forma de responder a questões tão complexas sobre a refundação da Europa, que são da competência da representação parlamentar", argumentou o ex-presidente.

Um dos obstáculos ao plano de Sarkozy tem sido a determinação da premiê britânica de levar a cabo a decisão dos britânicos, cumprindo o mandato de realizar o "Brexit".

Denúncias. A ofensiva de Sarkozy sobre o Reino Unido ocorre em um momento delicado de sua campanha nas prévias. Segundo institutos de pesquisa, o ex-presidente segue atrás do ex-primeiro-ministro Alain Juppé nas simulações de segundo turno. E, ainda que seja o escolhido para representar o Partido Republicano, sua rejeição continua forte – assim como a do atual presidente, o socialista François Hollande. Ambos estão atrás da candidata de extrema direita Marine Le Pen, da Frente Nacional. 

Outra pedra no caminho de Sarkozy são os escândalos políticos. Na terça-feira o site de investigação Mediapart revelou que a Justiça francesa tem em mãos uma agenda do ex-ministro do Petróleo da Líbia, Choukri Ghanen, que indica montantes transferidos pelo regime do ditador Muamar Kadafi em 2007 para Sarkozy para fins de financiamento clandestino de sua campanha eleitoral. O processo foi aberto pelo Ministério Público francês após denúncia. A agenda de Ghanem indica a transferência de € 1,5 milhão feita por Bechir Saleh, chefe de gabinete de Kadafi, à UMP, o antigo partido de Sarkozy. Outros trechos indicam que outra parcela de € 2 milhões teria sido transferida previamente, mas que o total então transferido somava € 6,5 milhões.

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