Saúde de Chávez é motivo de dúvidas entre os venezuelanos

Presidente passou por cirurgia de emergência em Cuba, devido a um abscesso pélvico.

Juan Paullier, BBC

14 de junho de 2011 | 15h06

Depois de uma operação de emergência realizada na última sexta-feira em Cuba, as informações divulgadas sobre o estado de saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ainda não convencem a todos no país.

O pós-operatório de Chávez já dura quase quatro dias, depois que o presidente foi operado em meio a uma viagem oficial à ilha cubana.

Chávez teve de passar pela intervenção cirúrgica devido a um abscesso pélvico, um acúmulo de pus decorrente de uma infecção bacteriana. Este tipo de lesão, se não for tratada a tempo, pode causar graves complicações.

Sem detalhes

O governo não divulga detalhes sobre a saúde de Chávez. Na noite de sexta, cerca de 12 horas depois da operação, o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, disse que a intervenção ocorreu "de maneira imediata".

Maduro afirmou que a operação teve "resultados satisfatórios para a saúde" do presidente, de 56 anos, e que "em poucos dias" Chávez estaria em condições de voltar a seu país.

Isto ocorreu pouco depois de um período de três semanas de repouso, no início de maio, quando Chávez voltou a sentir uma antiga lesão em seu joelho esquerdo - o que o obrigou a usar muletas.

Este novo problema de saúde gerou dúvidas na população, devido ao termo "abscesso pélvico", considerado muito genérico.

No sábado, diversos ministros asseguraram que o processo de recuperação estava encaminhado. No entanto, não houve manifestações nem de Chávez, nem de seus médicos - sem declarações ou explicações sobre o que houve.

"Muito exitosa"

Diante da expectativa gerada pela saúde do presidente, com cobranças da oposição devido à longa ausência, comentários de apoio e dúvidas sobre o ocorrido em redes sociais, o chanceler deu uma entrevista à rede de TV Telesur no último domingo.

Maduro assegurou que Chávez havia tido dores abdominais durante a viagem, na qual também visitou o Brasil e o Equador. Estas dores, segundo o chanceler, ficaram mais agudas na chegada a Cuba.

Maduro reconheceu que teria de atuar "o mais rápido possível", por ser uma "região delicada" onde se "poderia gerar uma infecção grave".

Depois disso, o próprio Chávez foi ao ar, por meio de telefone. "Me fizeram biópsias, estudos, microbiologia, diferentes exames de laboratório e não há nenhum sinal maligno ali", disse o presidente, que classificou a operação de "muito exitosa".

Para o presidente da Federação Médica Venezuelana, Douglas León Natera, o presidente "teve sorte de que o diagnóstico certo tenha sido feito no momento adequado", embora considere difícil opinar sobre o assunto sem saber dos detalhes.

Já o médico e ex-ministro da Saúde José Félix Oletta questiona o fato de que o quadro não foi levado a público por profissionais, e sim por parte do chanceler e do próprio Chávez.

"Não vemos a causa, vemos a consequência de um problema", disse o ex-ministro à BBC. Ele afirma que, ao desconhecer a situação de primeira mão, é preciso ser "muito cauteloso e evitar especulações",

Oletta afirma que "99,9% dos abscessos pélvicos ocorrem porque um órgão localizado na pélvis está doente".

Retorno?

"O retorno dependerá do progresso e da evolução da recuperação", disse Chávez no domingo. "Não se pode responder essa pergunta com exatidão matemática."

Mas o que há de tão grave que, quatro dias depois da operação, se desconheça quando o presidente poderá voltar?

Por agora, segundo especialistas, tudo está dentro dos prazos normais para este tipo de operação. O ex-ministro da Saúde afirma que, em casos normais de abscesso pélvico, a recuperação pode durar entre cinco e sete dias.

Oletta afirma que, em condições normais, não recomendaria a um paciente que viaje até uma semana depois da cirurgia.

No entanto, Natera acha que, em situações como essas, o processo de recuperação leva entre dez dias e duas semanas, período no qual o paciente deve manter repouso ou manter-se com movimentos limitados.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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