Saúde é um campo minado para vários presidentes

"O presidente vai entrar com tudo na briga, levando sua mensagem num discurso pela TV e pelo rádio", tentando aprovar sua lei de reforma da saúde, que vem sendo tachada de "medicina socialista" e "intervenção do governo" pela oposição. Parece familiar? Poderia ser uma reportagem de hoje, mas é trecho de um texto veiculado por The New York Times em 20 de maio de 1962. A reportagem foi publicada às vésperas do então presidente, John F. Kennedy, fazer seu discurso em defesa da criação do Medicare, sistema pelo qual o governo paga pela assistência médica de pessoas com mais de 65 anos. Mas, apesar do discurso - e Kennedy, como Barack Obama, era bom de discurso -, a reforma demorou ainda dois anos para ser aprovada.

Patrícia Campos Mello *, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2009 | 00h00

O Medicare foi a última grande reforma de saúde aprovada nos EUA - há 44 anos. Desde então, o tema sempre foi um abacaxi para os presidentes americanos que tentaram melhorar o sistema e acabaram derrotados por picuinhas intermináveis no Congresso. Richard Nixon chegou perto de uma reforma, mas não obteve apoio dos democratas liderados por Ted Kennedy. George W. Bush conseguiu aprovar uma extensão da cobertura de remédios para o Medicare.

O fiasco que está mais fresco na memória dos americanos é o Hillary Care. Em 1994, depois de não conseguir aprovar sua ambiciosa reforma de saúde, feita com pouca consulta ao Congresso, o então presidente Bill Clinton levou uma sova nas eleições legislativas. Os democratas perderam a Câmara e o Senado.O chefe de gabinete de Obama, Rahm Emanuel, faz questão de lembrar alguns liberais disso. "A inação terá consequências políticas", disse.

Por isso, o presidente resolveu fazer o que faz melhor: falar com a nação. Com o discurso de ontem à noite, ele tentou ao mesmo tempo desfazer uma série de mitos criados sobre a reforma, convencer americanos que têm plano de saúde de que eles não vão perder benefícios, assegurar a democratas moderados que o plano não vai aumentar o déficit e dizer a seguradoras que não haverá competição desleal do plano estatal.

Não vai ser fácil. O grito de um congressista, que chamou o presidente de "mentiroso" quando Obama afirmou que o plano não iria cobrir imigrantes ilegais é apenas uma amostra.

Mas está em jogo o futuro do governo Obama. Aprovar ou não a reforma pode definir sua presidência. As negociações já atravancam a agenda. A regulamentação financeira e a lei de energia andam a passos de tartaruga, com todo o esforços concentrados na saúde. Se ele não conseguir aprovar reforma, Obama vai marcar seu primeiro ano de governo com uma fragorosa derrota. E seu capital político vai encolher significativamente, dificultando a barganha de uma série de assuntos espinhosos que ele tem pela frente, como as contas do país e a guerra do Afeganistão, e ameaçando a maioria democrata nas eleições legislativas de 2010.

*Patrícia Campos Mello é correspondente em Washington

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